Com gentilíssima dedicatória do autor, recebi um exemplar do livro “Lembranças do futebol e do rádio amazonense”. O doutor Nicolau Libório dos Santos Filho, que hoje está no mais alto grau do Ministério Público amazonense, viveu nas redações de jornais e estúdios de rádios, onde, como repórter esportivo, sentiu emoções que coleciona na obra.
Ler o livro é mergulhar em um oceano de recordações e saudades, vendo desfilar em flashes a história de momentos (alguns edificantes, outros, nem tanto) do futebol e do jornalismo de esportes deste Estado. Perpassam figuras quase lendárias, como Irisaldo Godot, que conheci no batente de O Jornal e Diário da Tarde, e Jayme Rebelo, a desempenhar suas funções na rede dos Diários Associados, incluindo Jornal do Comércio e Rádio Baré. Relembra-se a atuação de homens que, já não se encontrando entre nós, dedicaram parte importante de suas vidas a esse ramo de atividade, qual Orlando Rebelo, José Augusto Roque da Cunha, João Bosco Ramos de Lima, Carlos Carvalho e Belmiro Vianez.
Adverte o autor: “Jogadores catimbeiros, goleadores inteligentes, trombadores, desajeitados, zagueiros ríspidos, dribles estonteantes, gols merecedores de placas, fazem parte de uma história que precisa ser contada, registrada, a fim de que não encontre o caminho do esquecimento”. Isso, depois da ponderação: “Sempre às quartas-feiras e aos domingos lá estava eu, curtindo a simples e ao mesmo tempo nobre missão de registrar mais um acontecimento. Ou um grande espetáculo. É claro que nem tudo era belo, nem tampouco censurável. Mas na soma de craques, jogadores com razoáveis aptidões e muitos pernas-de-pau, podia-se, na extração da média, conseguir um resultado satisfatório. Afinal de contas não é demais admitir que toda pirâmide precisa ter a sua base”.
Vale uma vista d’olhos nos craques. Impossível não mencionar em primeiro lugar o grande Paulo Onety que, transcrevo, “foi o verdadeiro craque na sua época”, já que “foi um atacante desejado por qualquer clube que tivesse a pretensão de vencer”. Ainda o vi jogar, envergando a camisa do meu sempre querido Fast Clube, no gramado, hoje inexistente, do velho Parque Amazonense. Paulo Onety foi assim: “Driblando com extrema facilidade, construindo belas jogadas, fazendo gols”, daí por que, “com tantas virtudes, era presença constante na seleção amazonense”.
E como esquecer os Piola? A afirmação do autor é verdadeira: “Nenhuma história sobre o passado do futebol amazonense será contada sem a inclusão dos nomes dos irmãos Piola. Edson, Antônio e Zequinha defenderam os grandes clubes de Manaus. Jogaram no Fast, Nacional e Olímpico”. Claro que me lembro dos três defendendo a minha paixão tricolor. Antônio, que inclusive teve a infelicidade de ser meu aluno no Colégio Estadual, e Zequinha, na zaga, eram sinônimo de tranquilidade. Edson, no ataque, era o próprio virtuosismo, com dribles e gols de fazer inveja a Pelé.
Mas os outros clubes também tinham seus ídolos. Dizer de todos, neste espaço, seria impossível. Mas seria também omissão imperdoável não referir, a título de exemplo, Iane, Pepeta e Rolinha que sempre souberam fazer a alegria da torcida nacionalina, enquanto Clóvis, Mark Clark e Ademir Maestro levavam à loucura os adeptos do Rio Negro, da Praça da Saudade.
Mas, para mim, que sou apenas um leitor, o momento sublime do livro está no texto da contracapa. É um protesto emocionado e lúcido, ao mesmo tempo, contra a criminosa derrubada do Estádio Vivaldo Lima. Vale a pena transcrevê-lo na íntegra: “As moedinhas caíam no cofrinho que juntou milhões, de gole em gole, percentual de cada garrafinha de refrigerante consumida em Manaus, para construir o monumental estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão, durante muito tempo o Colosso do Norte, orgulho da torcida no olé do drible, na jogada mágica, no gol inspirado pela fantasia do impossível. Antes era o Tartarugão, porque caminhava a passos lentos, impulsionado pelo parco orçamento público e emperrado pela burocracia estatal que não tem pressa e, portanto, como a tartaruga, não tem tempo para chegar. Foi o povo, com as moedinhas da esperança e do fervor da solidariedade, que tornou possível o sonho. Para implodir o projeto, este povo não foi ouvido e nem recebeu um centavo da sociedade esportiva de que participou, como acionista anônimo, e viu o sonho transformar-se em pesadelo, como um gol perdido, debaixo das traves, no último segundo da prorrogação da partida final do campeonato. O povo perdeu o estádio e as moedinhas, o estádio perdeu o nome e o futebol do Amazonas, que parecia adivinhar a derrubada do seu templo, se escondeu, amarelo de vergonha e vermelho de raiva”.
Antológico. Ralho impecável na ganância, na incúria e na irresponsabilidade. Lavou a alma de todos os amazonenses. Só resta dizer, muito obrigado, dr. Nicolau Libório.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...