Ao fazer o balanço de sua administração na Prefeitura de Manaus, no primeiro de três mandatos em que ficou quatro anos no cargo, o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, aproveitou para fazer críticas duras aos senadores Alfredo Nascimento e Eduardo Braga e à presidente Dilma Rousseff, recusando analisar o governador Omar Aziz. Ele falou à rádio CBN Manaus durante quase uma hora, em tom intimista, alertando que o prefeito eleito Arthur Virgílio Neto vai enfrentar dificuldades. “Imprensa, elite intelectualizada, todo mundo tem que ajudar o prefeito. Não politicamente. Não é isso. É a luta que ele vai enfrentar, que é para o bem de todos”, disse.
Amazonino confessou que estava muito doentes, antes das três cirurgias para colocações de pontes de safena e mamária, e só não se operou antes por causa do trabalho. “Faço exercício. Criei vergonha. Parei de fumar. Faço fisioterapia e o humor está muito melhor. Cheguei a perder oito quilos, mas minha meta é perder 12”, disse, sobre o momento atual.
O ponto mais polêmico da entrevista foi quando falou do ex-ministro dos Transportes e hoje senador, além de ex-prefeito de Manaus, Alfredo Nascimento. Leia a íntegra do comentário dele sobre Alfredo (a entrevista completa, em áudio, está abaixo desta matéria):
“O Alfredo é um rapaz de origem humilde. Mostrou capacidade, mostrou competência na minha primeira prefeitura. Dei a ele muitas funções. Ele terminou sendo prefeito eleito de Manaus. Aí, a partir desse momento, houve uma mudança na cabeça do Alfredo. Ele tinha autocrítica, faltou a ele isso. Quando foi convocado para ser ministro, do terceiro ministério mais importante de um País gigantesco como o nosso e originário de uma área que não tinha a menor tradição no setor – que que tem o Amazonas a ver com portos, estradas etc. Aí ele se sentia o máximo dos máximos. Ficou de salto alto. Passou a ter uma vaidade imerecida. Só pra abrir um parênteses, o Wagner, o grande compositor alemão, não pagava ninguém e quando iam cobrar ele dizia: ‘Não tem que me cobrar não. Eu sou credor porque eu sou um gênio’. Mas o Wagner tinha razão. Ele era realmente gênio. O Alfredo pensou que era e não era nada disso. E eu sabia que não. Mas isso não o desmerece, apenas mostra a fragilidade humana e como é difícil a função pública, se a pessoa não tá preparada psicologicamente.”
Leia a íntegra do comentário sobre Eduardo Braga:
“(Eduardo Braga) é um rapaz inteligente, determinado, tanto é que ele me sensibilizou que o lancei candidato a Governo. Dei a ele tudo. Foi meu vice-prefeito na época e o lancei para Governo, num momento em que ele estava completamente desesperançado, economicamente numa situação muito difícil, ele e família, estava pensando para sair do País. Ele me disse que estava pensando em sair do Brasil, tentar a vida fora, no exterior. Assumiu o Governo e mostrou ausência absoluta de respeito a certas virtudes humanas que eu acho que são inalienáveis: a gratidão, o respeito às pessoas, um certo equilíbrio com relação à coisa pública, pruridos com a coisa pública – acho que ele não teve tantos pruridos. Tornou-se vitorioso, mas através de ações que eu jamais praticaria porque não são recomendáveis. Esqueceu a administração. O povo não observa isso, nem a imprensa, ninguém observa, mas ele não administrou. Ele fez obras com dinheiro emprestado, endividando o Estado. E com isso ele conseguiu se reeleger, se impor, dominou, foi o imperador, fez o que quis etc. e tal, e eu não quero falar mais nada. Mas tem valor. Não tem só esses defeitos.
Amazonino também não poupou a presidente Dilma Housseff, que teria fraquejado ao aceitar pressões do senador Eduardo Braga para prejudicar Manaus, não liberando recursos para obras:
“(Dilma) Me decepcionou profundamente, como pessoa e como administradora. Eu jurava que a presidente Dilma ia ser diferente. Liquidou a Petrobras, tá acabando com as empresas brasileiras, a economia está indo cada vez mais pra baixo, existe uma guerra intestina no comando do Brasil e etc. e tal. Com relação a mim, ela não foi correta comigo, não foi correta com a cidade de Manaus. Ainda não recebi a verba para a Ponta Negra. Bairros inteiros nós fizemos com emendas contratada pela Caixa Econômica e não veio o dinheiro. Dizem que houve interferência do Eduardo pra não, mas presidente não pode fazer isso. Eu a apoiei e não merecia esse comportamento.”
Sobre o maior desafio que enfrentou na administração municipal:
“Quase me mata foi a questão de ônibus. Foram três anos de trabalho isolado, ininterrupto. Chamo atenção da sociedade, porque isso prejudica muito a sociedade, a cidade perdia pela intervenção de órgãos oficiais. Uma liminar quando é concedidas às pressas, ela pode trazer consequências funestíssimas. Houve não sei quantas liminares nessa questão do transporte coletivo. Com segurança, todas elas equivocadas. Essa instituição, da liminar, que o Brasil pratica com tanta facilidade, acredito eu que ela devia ser regulamentada com mais rigor”.
“Isso aconteceu não apenas por decisão judicial, mas por intervenção do Ministério Público e da imprensa.”
Os defeitos da administração:
“Deixei de fazer muita coisa. O sistema de transporte coletivo, por exemplo, resolvi parcialmente. O transporte executivo concorrendo com o transporte oficial. É situação contraditório porque torna-se predatório. Um é resultante de licitação, regulamentação e o outro não. Não consegui resolver.”
“Tínhamos um escândalo, com 500 mil meias-passagens dia. Absurdo, absurdo, absurdo… Isso fazia com que as empresas não pudessem reparar os defeitos dos ônibus, comprar ônibus novos etc. Chegou um ponto de verdadeira irrecuperabilidade. Fomos demolindo obstáculos e você não viu solidariedade, aplausos. Ao contrário, só crítica. Peguei muitos editoriais de jornais contra, passeatas nas ruas… Hoje temos 169 mil meias passagens. Todos os estudantes foram contemplados. Isso significa que 300 e poucos mil eram fraudes.”
“Não me deixaram fazer o camelódromo. Hoje está num dos jornais e eu faço é rir… não cumpri minhas tarefas. Quando eu falei das mil creches eu falava da creche em casa, mas o Ministério Público proibiu no Brasil inteiro. Estou entregando cinco creches e quando a Dilma abriu para o País consegui 110, mais que qualquer outra cidade brasileira, mas, por causa de terrenos etc., estou com 55 em andamento e já acordada com o Ministério. A Prefeitura entra com 20%. São R$ 2,5 milhões e entra com R$ 500 mil. Manaus será a cidade brasileira mais bem dotada de creches.”
“Não quer dizer que tá tudo mastigado pro Arthur não. Ele vai sofrer. Principalmente por causa dos terrenos. É tão difícil que, de 110, consegui 55.”
Buracos
“Fiz 364 obras. Trabalhei nas 14 mil ruas de Manaus. Houve um momento que Manaus não tinha buraco. Isso é um milagre, numa cidade como nossa, gigantesca, espalhada, horizontal. Hoje vejo buraco, mas não chega a 10% dos buracos que encontrei quando assumi”.
Adeus ou até logo?
Nem uma coisa nem outra. Tô preocupado com o vazio que vai ficar. Acostumado ao trabalho, a enfrentar problemas e de repente vem aquele vácuo. Isso pode até ser prejudicial à saúde. Só não penso em fazer política. Não quero. Não quer dizer que não posso concorrer…
Prefeitos do interior
No meu partido fiz quatro prefeitos e fora do meu partido fiz mais oito. Então tenho 12. Se eles precisarem de alguma orientação, com a experiência que a gente tem, estarei à disposição.
Sucessão do governador Omar Aziz
“Vai haver muita mudança. No Brasil e aqui. Eduardo não é nada. É só Senador e líder do Governo. Tem bom desempenho eleitoral. É jovem, tem 50 e poucos anos.”
“Apesar de ele estar fora, presume-se que ele seria o candidato oficial, pelo atual governador. Sempre analiso estrategicamente. E o que eu enxerco é que essa briga (Omar X Eduardo) não existe, até porque o atual governador não pode ser candidato à reeleição. E acho que o candidato dele é o Eduardo Braga. Se não for, não sei o que é que o governador tá fazendo politicamente. Fica complicado entender essa equação. Mas mesmo assim, com o Eduardo sendo o candidato oficial do Governo – e é tradição do Governo ganhar a eleição, sobretudo em razão do interior – eu acho que o País vai gerar muita mudança e aqui vai ter reflexo.”
Finanças municipais
“A Prefeitura de Manaus tem receita menor que 100 outras cidades do Brasil. Tem 2 milhões de habitantes, é a sétima em população. Não tem recursos frente à demanda. O Serafim quando concluiu o mandato me deixou a Prefeitura com orçamento realizado, em seu último ano, de R$ 1,8 bilhão. Meu orçamento, neste último ano, foi de R$ 3,2 bilhões.
Prefeitura não tinha nenhuma organização no ISS, seu principal tributo. A nota fiscal eletrônica não era aplicada porque não tinha sistema. O ISS foi o que mais cresceu. Dobrou, praticamente.
Manaus não tinha cadastro, uma confusão. A cobrança de IPTU era um equívoco permanente. Todo ano uma confusão louca e o Município tendo prejuízo e mais prejuízo. Hoje tem cadastro digital, com fotos de cima e de baixo.
Controle de Receita e Despesa. Capacidade de investimento, com orçamento menor, era de 4,7%, e estou deixando com orçamento maior e média de investimento de 14%. Ano passado, a média foi superior, mas este ano foi o ano pior. O Governo Federal massacrou os Municípios. Usou o dinheiro deles para fomentar a indústria automobilística, dinheiro das prefeituras e entupindo as ruas de veículos, criando a necessidade de mais intervenções no trânsito.
Tiramos Prefeitura da UTI, mas não da assistência médica. O Arthur vai continuar um trabalho árduo, difícil, terrível e duro. Imagine 14, 15 mil ruas na cidade, sem drenagem correta, com índice de chuva brutal, precisa de uma fábula de dinheiro para manter essas ruas em condições.
A limpeza pública. O aterro sanitário técnico é uma exigência. Ano que vem tem que ter. Fiz uma PPP que estava funcionando e mandaram suspender.
Vai ter problema no trânsito. Entram em Manaus 40 mil a 50 mil veículos. Não tem pra onde ir. Isso tá explodindo.
Imprensa, elite intelectualizada, todo mundo tem que ajudar o prefeito. Não politicamente. Não é isso. É a luta que ele vai enfrentar, que é para o bem de todos.
Episódio envolvendo moradora de área de risco paraense ou o “Então morra!”
“Não houve nada. O prefeito foi a área de desastre. Prefeito, governador, presidente da República não vai. Quando vão é de helicóptero. É regra política. Eu sempre fui. Se não tivesse ido não teria acontecido nada. Lá encontrei a cidadã, coitada. Sofrida, humilde, sem instrução, migrante do interior do Pará, que tem milhares e milhares aqui. A casa dela estava debaixo da iminência de um desbarrancamento. Ela chegou e reclamou. Eu disse: “Minha filha você vai ter que sair daí”. Ela disse: “Eu não vou sair. Eu não posso sair”. “Não minha querida, você vai sair senão você vai morrer”. Ela disse: “Não vou sair”. Aí eu disse: “Então morra”.
“A grande maioria que se encontra nas áreas de riscos, beira de igarapé etc. é tudo do Pará, 90% é do Pará. É uma gente que, apesar de ser amazônida, da nossa região, tem uma cabeça um pouco diferente da nossa. São teimosos, recalcitrantes, não aceitam recomendação. Tem um lado bom, maravilhoso, mas tem esse outro lado. Santarém foi a terra do meu pai, que passou a infância toda aí.
“Fizeram maldade como se fosse inimigo do povo paraense, como se estivesse discriminando e não foi nada disso.”
Transição
“Toda a administração tá à disposição, com a obrigação de abrir tudo, com transparência e tal. Três vezes fui prefeito e três vezes recebi a Prefeitura. Gostaria de ter recebido do jeito que eu entrego. Entrego bem. Não recebi assim. Passei três a quatro meses para receber a folha de pagamento.
Revelação bombástica: o prefeito assinou pagamento de R$ 15 milhões para uma dívida de pouco mais de R$ 4 mil
Teve um negócio tão escandaloso: cheguei a assinar pagamento da ordem de R$ 15 milhões que, na verdade, eram R$ 4 mil e pouco. Chegou na minha mesa, para assinar, com o mesmo nome da pessoa física, como se fosse pessoa jurídica. Foi descoberto acidentalmente. Aquilo me assustou muito. Quantas vezes não devem ter ocorrido pagamentos que tais? Essa era a Prefeitura.
Programas municipais
Não prometi Leite do Meu Filho, Carretas da Mulher e Casonas da Família.
Criança que não se alimenta bem tem desvio comportamental social, o que pode explicar as galeras, a juventude em delinquência… não é socioeconômico. É fisiológico.
Emoção e lágrimas ao falar de Gilberto Mestrinho
“Se eu procurar todas as palavras no dicionário, para falar de gratidão e respeito e admiração não conseguia externar o que eu sinto. À medida que o tempo passa, do seu desaparecimento, aumenta mais esse sentimento. Eu, agora mesmo, estou emocionado.”
Homenagem a Tarcila Negreiros, com quem ainda é casado
“Foi a mulher da vida, mulher maravilhosa, eu não merecia essa mulher. Só tive a ganhar com ela. Linda, inteligentíssima, brilhante, cobiçada, líder, intelectualizada. Mulher fantástica. Me deu três filhos maravilhosos. Vivemos uma vida muito bonita até os 43 anos, quando a vida foi nos afastando, naturalmente, mas o afastamento foi só físico, nunca espiritualmente.”
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