21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Voto não obrigatório

Publicado em 02 de novembro, 2012

Tendo em vista a proximidade dos setenta anos, a Constituição assegura que domingo passado ocorreu minha última participação obrigatória como eleitor. Nenhum motivo para deleite. Muito pelo contrário. Como não cansa de afirmar meu amigo Alfredo Cabral, a velhice só pode ser encarada como uma condição fatal e evitá-la dependeria de aceitar outra solução ainda menos agradável: morrer jovem. Mas dizer que ela é a melhor idade, só pode ser tido à conta de humor negro, de mau gosto, diga-se de passagem, já que ninguém pode imaginar que um velho, salvo excepcionais acidentes, possa estar melhor que um jovem no vigor de seus vinte e cinco anos.

Se não sou obrigado a votar, entretanto, não quer isso dizer que deixe de fazê-lo, até porque, às vezes, é apenas por via desse singelo exercício que podemos expressar algumas coisas que guardamos de mais profundo e que não encontram outra válvula de escape. Por exemplo: como dizer “não” à prepotência e à arrogância de certos poderosos se não for manifestando a rejeição das urnas? É que a cidadania não dispõe de meios que lhe permitam, ao vivo e a cores, fazer sentir a esse tipo de gente que ela é apenas tolerada por força de uma errada opção feita no passado.

Vale, então, o singelo toque nas teclas eletrônicas e não apenas para corrigir esses eventuais equívocos, mas sobretudo como busca de soluções para problemas coletivos geralmente negligenciados, ou, quando nada, tratados de maneira superficial pelo que têm o próprio umbigo como centro do universo.

Quem não viu, aqui mesmo nesta Manaus de mil contrastes, como diria Gil Barbosa, um ex-presidente da República, espumando ódio e gotejando rancor, expor sua preferência eleitoral de forma grosseira e incivilizada? O apelo que fez traria a marca do patético se não fosse espúrio e descabido, na medida em que transmitiu a clara sensação de que o povo desta terra nada mais seria que um aglomerado de idiotas, sem qualquer capacidade de raciocínio ou de decisão.

Clamou no deserto e há de estar com cara de tacho e, literalmente, as barbas de molho, até como forma de se regozijar pela proeza de ter conseguido permanecer de fora da apuração judicial do escândalo de corrupção com que seu governo presenteou a gente brasileira. Raro, raríssimo caso de surdez e cegueira institucionais, a permitir que as transações mais espúrias tivessem lugar na própria sede do Executivo, sem que o seu chefe delas tivesse notícia ou pelo menos desconfiasse, mantendo-se inerte e em plácido sono.

Falha do sistema apurativo, dirão os legalistas. Terá sido só isso mesmo? Carece-se de excessiva boa vontade ou de ingenuidade galopante para acreditar que, formalmente confirmados os fatos, a autoria deles, a real e completa autoria, não tenha sido devidamente estabelecida, até porque estamos no plano da simples relação de causa e efeito. Um primário processo dedutivo não deixa esconder evidências até porque elas saltam aos olhos, mesmo do pior cego que, como sabe o povo, é aquele que não quer  ver.

Talvez fosse de invocar conveniências políticas ou de controle de crises. É possível. Afinal de contas é inegável que o impacto sobre a população seria infinitamente maior se entre os condenados estivesse figura de proa, que sempre alardeou intocável honestidade e compromisso com o que seria popular. Se assim for, só me restar calar. É que minha vã filosofia não me permitiria adentrar os segredos do reino da Dinamarca, ainda mais se se trata de discutir a loucura do príncipe ou o homicídio do rei. Seria imperdoável ousadia plebeia.

Digo apenas que, obrigado ou não a votar, não me furtaria ao voto, como não me furtei, se o caso é de resgatar o mínimo de dignidade e coerência. É o que exige de mim a Manaus que me viu nascer, que embala minha velhice e que há de guardar meus ossos. E eu lhe devo isso, quando nada como forma de manifestação de amor. Amor que não escondo e que tantas vezes proclamei porque ser manauense não é apenas uma questão do lugar de nascimento por isso que é, antes de outra coisa, uma questão de orgulho. Estou ainda mais orgulhoso de ti, minha Manaus. Foste altiva e não te quedaste cabisbaixa diante do rompante das trombetas de um poder que, se não pode ser persuasivo, descamba, aqui e acolá, para a truculência mais desmedida ou, quando nada, para a falta de educação e civilidade.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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