21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Solidariedade a Amazonino

Publicado em 25 de outubro, 2012

Jamais fui de esconder preferências e posições, dando pouca atenção à popularidade destas ou daquelas. Às vezes há extraordinária coincidência como é o caso do boi-bumbá Caprichoso que, por mim reverenciado, é-o também pela esmagadora maioria dos que se deliciam com as maravilhas do festival. Mas não é o caso, por exemplo e infelizmente, do Fast Clube. Sendo uma das minhas paixões desde os longínquos tempos de infância, o Rolo Compressor não consegue empolgar o número que merece de torcedores. Talvez, quem sabe, por não ser campeão há tanto tempo.

Essa sinceridade de que cuido me leva a avançar para terreno similar: nunca, em tempo algum, a deslealdade e a ingratidão tiveram lugar entre a gama dos meus defeitos. A desfaçatez de louvar apenas os que estão no auge é algo que me repugna, na medida em que não tenho a vocação da aristocracia absolutista para proclamar singelamente: “O rei morreu. Viva o rei”, ou, na versão britânica, “o rei morreu. Deus salve o rei”.

Por tudo isso, não encontraria eu conciliação com meu travesseiro se ficasse omisso e calado diante da campanha difamatória e injuriosa de que foi vítima o prefeito Amazonino Mendes, durante o agora findo período de propaganda eleitoral. A candidatura chapa-branca, à míngua de argumentos e projetos, entendeu de descarregar sobre ele todas as suas frustrações e preconceitos, inculcando-lhe responsabilidades que se situam mais no plano histórico do que no factual.

De tudo Amazonino passou a ser culpado. O rompimento de um cano d’água tinha o dedo do Negão, demoniacamente decidido a não permitir que a população consumisse “o precioso líquido”. Era a afixação do rótulo de “inimigo da água”, passando ao povo a falsa impressão de que o prefeito tomou por capricho a decisão de não permitir um abastecimento normal.

O temporal que atingiu a cidade foi, com certeza, maquinação do prefeito com Eolo, com vistas a castigar a cidade com ventos de oitenta quilômetros por hora, tudo por mero deleite. Aqui, um simples fenômeno da natureza foi erigido à condição de defeito irremediável, talvez com a pretensão de exigir que, para tentar impedir a repetição do fato, a prefeitura crie mecanismos para desviar a ventania.

O afogamento de banhistas na Ponta Negra, situando-se no plano do macabro, há de ter sido um pedido de Amazonino a Netuno, de tal maneira que a divindade, saindo da profundeza dos oceanos, viesse, com seu tridente, garfar os incautos nas águas do Rio Negro. Resulta patente daí que, tendo tamanha intimidade com os seres mitológicos, Amazonino restou culpado, igualmente, de não lhes ter invocado e usado os poderes para impedir que a inteligência de nosso povo fosse ofendida de maneira tão grosseira e soez.

Só faltou dizerem que é de propriedade do prefeito a granja de onde saiu o ovo utilizado naquele espetáculo de fancaria com que espertalhões puseram a nu toda uma incrível mediocridade. Foi episódio lamentável, onde o desrespeito ao eleitorado ganhou proporções gigantes. Se foi ovo ou saliva, “ninguém pôde até hoje explicar”. “O que há de verdade” é que ninguém sai impune da tentativa de engambelar uma gente que nada exige além do mínimo de consideração.

Ainda há que lamentar a forma no mínimo covarde como fluíram as agressões. Postas no contexto da propaganda eleitoral, as ofensas correram em mão única, na medida em que, pela própria natureza do processo, inviabilizavam qualquer manifestação de defesa por parte do ofendido. Era a utilização pura e simples de poder e arrogância, enraizados ambos no mais profundo dos que não conseguem admitir contestação a uma suposta supremacia, conseguida por métodos nem sempre livres de uma estranha e suspeita névoa.

Os que me conhecem sabem da natureza e da origem do relacionamento que mantenho com Amazonino. Não hão, portanto, de estranhar este desabafo que, se não viesse a furo, travar-me-ia permanentemente a garganta. Não que tenha ele alguma importância. O atual prefeito é homem público de consagrada carreira política e a seu currículo pouco ou nada pode acrescentar esta singela manifestação. Trata-se mais de simples decência, pois é de meu dever mostrar a filhos e netos que seu pai e avô não jogou no lixo as lições de respeito e moral que sempre lhe foram incutidas.

Fica apenas o protesto contra o ladrar insano que, sem poder impedir o andar da caravana, se compraz com o barulho inconsequente.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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