21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Quelés

Publicado em 04 de outubro, 2012

Todo amazonense que se preza já, pelo menos, ouviu falar de mixira. Comer, não digo, que, depois de a ecochatice ganhar foros acadêmicos, a culinária local sofreu reviravolta a ponto de se verificarem heresias como a tartaruga servida com batata portuguesa e ervilha. Ofensa do mais alto coturno que há de perturbar o sono eterno de dona Lucíola, minha velha mãe e tartarugueira de mão cheia e para quem, como não canso de repetir, o quelônio-rei não precisa de mais que alfavaca, chicória e cheiro verde.

Mas o que é mesmo a mixira, afinal? Os dicionários dela tratam, mas com definições que não atingem o cerne da questão. É preciso recorrer a quem sabe do assunto. A boa resposta, a resposta verdadeira, está no livro “Quelés”, recentemente lançado por esse amazonense autêntico e de boa cepa que é o doutor Roberto Caminha Filho. Ouçamo-lo: “A mixira é um prato feito da conserva do animal em sua própria banha derretida e mantido na gordura dele mesmo, durante muito tempo”. Pronto. Simples e objetivo. E, para os que nunca desfrutaram da iguaria, vai o modo de consumo: “O caboclo tira a quantidade que quer e prepara só com coentro, alfavaca, sal e cebolinha roxa do mato. Comem com muita pimenta, farinha e macaxeira”.

Não sou, e obviamente nunca serei, um crítico literário. Faltam-me formação e cultura para o exercício de tão erudito mister. Nesse campo, apenas exercito o direito inalienável de qualquer leitor e única forma aceitável de censura: mandar o livro às favas se ele se apresenta de chatice insuperável. Já o fiz, por exemplo, pelo menos umas cinco vezes, com o intragável “Grande Sertão: Veredas”, do festejadíssimo Guimarães Rosas, não  tendo   conseguido, apesar de todo o esforço, ir além da décima quinta página.

Essa mesma sinceridade me leva a lhes dizer: “Quelés” não é livro que se largue pela metade. A saga de uma família cearense que desbravou o Rio Juruá, conquistando e mantendo seringais, é contada de maneira envolvente, com um realismo que faz os episódios passarem aos olhos do leitor como num “thriller” de aventura e suspense da mais alta qualidade.

A ternura quase ingênua do amor de Manoel e Tunica é contraponto do eloquente erotismo que o mesmo Manoel, vadiando na Manaus da “belle époque”, vive com a paraense Nazaré, nos luxuosos aposentos do Hotel Cassina, ponto de encontro de toda uma burguesia afrancesada. Iludida pelo sonho do látex, esbanjava o que lhe sobejava do dinheiro, tão cuidadosamente direcionado para encher as arcas dos ingleses, até que as plantações da Malásia nos fizeram retornar ao “status” de porto de lenha. Depois, veio a Zona Franca e a coisa se repete.

A violência era uma constante na conquista do Juruá. A lei se resumia ao facão e à “papo amarelo”, com que os proprietários repeliam as tentativas de invasão aos seus seringais. Terra de ninguém, virgem e agressiva, a brutalidade da vida na floresta surge exuberante no livro, retratada com tintas fortes.

Brutal, exemplificativamente, é o episódio do massacre de estrangeiros. Um membro do grupo assassinara um médico, parente dos Quelés. A vingança foi cruel. Cento e quarenta e dois indivíduos foram sumariamente dizimados no acampamento que ergueram na mata. Seus corpos foram jogados no rio, servindo de alimento aos jacarés, o que levou à ponderação: “Essa matança vai dar problema para nós. Foram cento e quarenta e dois peruanos e bolivianos; difícil não deixar pista”.

Profética a assertiva. Manoel, o chefe do clã, vítima de delação, acabou por ser recolhido à cadeia pública em Manaus. Entra em cena toda a mixórdia do sistema penitenciário, da mesma forma como é questionada de maneira brilhante e sutil a lisura do comportamento da autoridade judicial.

Esse quadro de sangue e desordem pode até parecer exagerado para frágeis sentimentalistas. Sugiro-lhes uma leitura, ainda que superficial, sobre como se desenrolou o desempenho dos bandeirantes paulistas e as atrocidades que praticaram contra os índios no Brasil colônia.

“Quelés” é de leitura obrigatória para todos os amazonenses. Como adverte o autor: “A violência dos rios só poderia ser enfrentada por caboclos e índios daquela região. Se alguém ousasse ir contra aquela natureza, certamente se arrependeria”. Estamos, mais do que nunca, precisando, desse choque de ânimo que nos dá o doutor Roberto Caminha Filho, “apaixonado compulsivo pelas coisas de sua terra”, como o apresenta o outro Roberto, o Gesta de Melo.

Basta ver que o Senado já foi tomado por uma legião estrangeira. E agora é a própria Manaus que se encontra sob ameaça. É preciso saber ser amazonense.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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