17/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Grandes projetos

Publicado em 23 de fevereiro, 2012

Há algum tempo que os parlamentos brasileiros, em todos os níveis, vêm perdendo a noção da verdadeira utilidade para que existem em nosso sistema federativo. Desde a Câmara enquistada nos mais remotos rios desta Amazônia continental até o elevadíssimo Senado da República, todos se perdem em futilidades que, sobre serem inúteis, tangenciam as fronteiras do ridículo. O campo mais fértil para esses devaneios é o da criação de datas comemorativas, onde nossos ilustres legisladores não vacilam diante da necessidade de um pródigo exercício de imaginação.

Pouca gente sabe, por exemplo, que, em 2010, a Câmara Federal aprovou proposta considerando a última semana do mês de março como sendo “de Mobilização Nacional para Busca e Defesa da Criança Desaparecida”. O autor da façanha foi o deputado Roberto Alves, do PTB de São Paulo. Sua Excelência revela marcante vocação sherloqueana e, conquanto perder crianças não seja atividade das mais nobres, parece primário que elas não devem ser procuradas e defendidas apenas durante uma semana do ano.

De São Paulo também, mas do Democratas, é o deputado Guilherme Campos que conseguiu emplacar a data de 24 de junho como o “Dia Nacional da Ufologia”. São João não deve ter gostado muito dessa ideia de compartilhar o dia de sua festa com a caçada a objetos voadores não identificados. Mas o deputado parece estar coberto de razão porque há de ter tido em mira evitar qualquer confusão com os balões juninos, causadores de incêndio, com discos voadores que vão e vêm, de tal forma que o autor de certa marchinha de carnaval já afirmou que essa “história de dico voador é São Pedro brincando de ioiô”.

O carioca Jair Bolsonaro, do PP, é aquele que já deu claras demonstrações de que não tem em elevada conta as pessoas que praticam o homossexualismo. Com tal visão, logrou ele estabelecer que a segunda semana do mês de agosto há de ser considerada como a “Semana Nacional da Saúde Masculina”. Não sei como é que se comemora essa tal semana. Cuido que com malhações, corridas e lutas de boxe, tudo com o objetivo de mostrar a absoluta virilidade do gênero, de maneira a evitar confusões constrangedoras.

Por obra e graça do deputado Flávio  Bezerra, do PRB cearense, o dia 22 de novembro é considerado o “Dia Nacional em Defesa da Orla Marítima”. Entende-se que o eminente legislador nordestino busque a proteção para as magníficas praias com a natureza brindou o seu Estado natal. Mas não seria o caso, também, de algum amazonense apresentar proposta similar em defesa das orlas fluviais? Afinal de contas, se o oceano, com aquele tamanho todo, precisa de um dia específico para se defender, o que dizer de nossos rios que, diante do reino de Netuno, são modestas moradias para a mãe d’água e sua corte?

O ex-senador Mão Santa propôs a dispensa de exigência de documentação para os motoqueiros, ao argumento bem convincente de que “moto é como cavalo”. E, nos idos de 2000, o deputado Pastor Valdeci queria porque queria que na certidão de nascimento, no RG, no CPF fosse inserida a expressão “Deus seja louvado”.

É muita falta do que fazer ou, na melhor das hipóteses, um exacerbado senso de humor. Como mortal comum, não estou à altura de tão elevados entendimentos cívicos e patrióticos.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.