17/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A testemunha e o juiz

Publicado em 19 de janeiro, 2012

A moça mandou fazer roupa nova para comparecer ao evento. Chegara-lhe à residência, no dia anterior, uma solene “intimação” para depor como testemunha em processo criminal. O fato tinha tido enorme repercussão midiática e, sem nenhum costume de tratar com essas trivialidades forenses, a ela pareceu que surgira a oportunidade de desfrutar dos famosos quinze minutos de fama. Imaginou-se cercada de repórteres, ávidos por novidades, fazendo mesmo aquele colar de microfones, que representa a glória maior de qualquer político em campanha. Vai daí que a conversa com as amigas não teve outro tema a partir de então. “Vou depor na Justiça”, transformou-se no bordão inicial de todos os seus diálogos, sendo que a última palavra era pronunciada com tal ênfase, que justifica a maiúscula do texto.

Despertou admiração no seu círculo. Nunca, nenhuma das outras tinha vivido experiência assim marcante e a expectativa semeou em solo fértil, trazendo consigo, aqui e ali, uma pitada de inveja, mais ou menos disfarçada. À socapa, chegou-se a ouvir algo como “ela está toda besta só porque vai ser testemunha”. “É, minha filha, quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”, foi o comentário de uma outra, esta já visivelmente sem condições de esconder a revolta por não ter sido premiada com honra tão excelsa. “Testemunha! Uma lambisgóia daquelas!”

O tempo, como sói acontecer com os corações angustiados, parecia ter resolvido andar a passos de cágado. Ainda faltava um mês para a audiência e, aos olhos da moça, esses trinta dias tiveram a duração de séculos, tal a vagareza com que o sol deliberou cumprir sua missão de revezamento entre a claridade e a escuridão.  Até que chegou o grande momento. Como a coisa era à tarde, a manhã foi utilizada num azáfama entre cabeleireiro e manicure que, afinal de contas, “não posso comparecer perante a Justiça como se fosse uma qualquer”.

Uma hora antes, lá estava ela na sala. Bem vestida, maquiada, penteada e perfumada, à espera de que tivesse início o grande espetáculo, no qual (quem diria) ela era atriz de destaque. Eis que entra Sua Majestade (perdão, Sua Excelência). Entra com a beca esvoaçante, compenetrado de sua importância e defere um leve cumprimento de cabeça à plebe ignara, que o olha, pensa, com merecida admiração.

Vai ter início o depoimento da testemunha. Há que ser tomado o compromisso de dizer somente à verdade, coisa que os juízes fazem com a mais absoluta singeleza, advertindo a pessoa que vai depor sobre as penas cominadas ao falso testemunho. Ah, mas aquele não era um juiz normal. Estava ungido por óleos divinos e sacramentais, de tal maneira que sua autoridade não pode, não deve e não vai ser questionada por aquela mulher ridícula, toda pintada e empoada. E assim a voz trovejante ecoou em plenário: “Dona Maria dos Anzóis Prazeres, a senhora comparece hoje a este sagrado templo como testemunha no processo-crime que a Pública Justiça move contra o réu José Fredegundo. Quero lhe dizer que a senhora tem que tomar muito cuidado porque hoje sua vida pode mudar. Se eu perceber que a senhora está mentindo, a senhora sairá daqui algemada, diretamente para a penitenciária”.

A pobre mulher tremeu dos pés à cabeça. Então aquilo era a Inquisição e o juiz, o Torquemada? Decepcionada, conseguiu balbuciar: “Doutor, o senhor está me ameaçando”. A cavalgadura retrucou de pronto: “A senhora ainda não me viu ameaçar alguém!”

Salomão faria paráfrase de si mesmo e diria: “Vaidade das vaidades, tudo é estupidez”.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.