Escola de Samba Mixta da Praça 14 de Janeiro
Escola Mixta de samba da Praça14 de Janeiro. Essa Escola foi a precursora da Atual G.R.E.S. Vitória Régia (fundada em 01 de dezembro de 1975) – a Verde e Rosa amazonense. A Mixta (grafado com X mesmo) por diversas vezes foi citada em sambas de enredo de algumas Escolas da cidade, como o da Primos da Ilha (1993) e o da Vitória Régia (1994). Seu primeiro presidente foi Fernando Medeiros e o baluarte de sua história foi Zé Ruindade, uma espécie de “Paulo da Portela” de Manaus. Em 1946, ele mais um grupo de amigos decidiram fundar aquela que seria a primeira escola de samba da cidade. Ruindade também era o puxador da agremiação e, ia cantando da Praça 14 à Avenida Eduardo Ribeiro. Só utilizava o microfone (das rádios) quando chegava ao palanque oficial. Aí a festa era completa.
Tia Lurdinha e a 14
Lembremos da saudosa “baiana” e quituteira da G.R.E.S. Vitória Régia, Tia Lurdinha – falecida em julho de 2003 –, Que desfilou nessa escola por quase três décadas. Tia Lurdinha, quando era requisitada, sempre cantava uma quadra de um antigo samba da escola: “Não é direito/ não é legal/ Mudar o nome de Praça14/ Para Praça Portugal”, rememorando um samba dos anos de 1950 da extinta escola do então longínquo bairro da Praça 14. Samba-protesto, cantado por grande dos moradores do bairro, que não concordava com a possível mudança do nome Praça 14 para Praça Portugal. Como se sabe, a data de 14 de janeiro é alusiva a uma Revolução, ao levante popular, que culminou com a derrubada do governador Taumaturgo Azevedo em 14 de janeiro de 1892, fato que fez com que o Governo Federal designasse para cá, em definitivo, por quatro anos, o engenheiro maranhense Eduardo Gonçalves Ribeiro, para governar o Estado, três meses depois.
A Praça 14 também já foi chamada de Praça da Conciliação e Praça Fernandes Pimenta, passando depois, oficialmente, a se chamar Praça 14 de Janeiro, um pouco antes dos meados do Século XX. O núcleo inicial dos moradores do bairro chegou aqui em 1886. Eram em sua maioria, formado por negros maranhenses, alforriados. O Estado do Amazonas aboliu os escravos, quatro anos antes da Lei Áurea (1888) e grande parte dos negros que queriam a libertação chegavam à Manaus nas embarcações a vapor, desde Belém-PA. Esses negros trouxeram sua forma de viver em vários aspectos e daí o berço do samba de Manaus ser a Praça 14 de Janeiro (Ou Vila Maranhense, como diziam os antigos), que abraçou esta cultura de raízes africanas, “ligada e atada” com os batuques, que gerou o samba de Manaus. No trecho compreendido entre as ruas Japurá e Visconde de Porto Alegre, além das “baixadas” próximas à Avenida Ayrão e parte da Rua Duque de Caxias, foram mais crescentes e pujantes essa influência. No início, mais entrelaçado ao sincretismo religioso (com o catolicismo), com as festas do “Mastro de frutas”, de São Benedito, dando paulatinamente – com o passar das décadas – espaço para o próprio samba iniciar sua história na cidade.
Vide trechos de alguns sambas – dos anos 50 – da Escola Mixta:
“Manaus e os seus grandes monumentos”
Compositor: Nezinho
Salve o nosso grande Teatro Amazonas
Que nunca se quebrou
Foi o prédio primeiro construído na Avenida Eduardo Ribeiro
E o ideal que não fica para trás
De ano em ano faz seus bailes de cartaz
Mas o Tribunal de Justiça é quem manda mais
“Minha Praça 14 querida”
Compositor: Nezinho
Minha 14 querida
O carnaval já chegou
Queremos te ver na avenida (bis)
Cantando o samba
Em seu louvor
Tu és para mim
A escola mais querida
Praça 14 é minha vida
O carnaval já chegou (bis)
Meu senhor
Para alegrar nossa vida
“Homenagem ao Teatro Amazonas”
Nasceu em 1800
Não abandono seu sofrimento
Mas o seu nome não morreu
Agora tem outra vida
Parece até o dia em que ele nasceu
Está certo! Está certo!
Quem deu a vida ao Teatro foi Gilberto (bis)
E o mais conhecido:
“Não está certo, Não está legal”
Compositor: Zé Ruindade
Houve um comício
E a turma toda protestou
A nossa Escola não perde a pose
Vamos descer como Praça 14
Não está direito
Não está legal
De mudar o nome de Praça 14
Para Praça Portugal (Refrão)
* A Mixta encerrou as suas atividades em 1962, com o presidente Edmilson Costa. As cores do pavilhão da mais antiga Escola de Samba baré eram: amarelo, preto e vermelho. O detentor do estandarte original era o pesquisador e Mestre de Boi Bumbá, Melchiades Braga, o “Ligeiro”, também compositor, falecido em 2008.
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* Daniel Sales é pesquisador cultural.