16/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Meu amigo Alfredo Cabral

Publicado em 25 de dezembro, 2011

Toda gente que escreve (bem, como muitos, ou mal, como eu) já pensou em produzir uma crônica de Natal. Entende-se. O ambiente é propício ao sentimentalismo pois a Igreja Católica conseguiu cercar a festa de uma aura que transborda a própria crença religiosa. Quem nela foi criado, como é o meu caso, mesmo que se afaste dos preceitos, jamais consegue esquecer os presépios e a ternura das canções que a todos envolvem. É uma época, mesmo para os mais empedernidos, de expressar boa vontade e reconhecimento, de tal maneira que o chamado “espírito de Natal” se faz presente nos mais corriqueiros gestos.

Se assim é – e rendo-me à evidência –, parece-me de todo em todo correto que possa eu traduzir esse sentimento natalino através da evocação da figura da amizade. Ser amigo é ser leal e solidário. É compreender e desculpar os defeitos que, na “humana lida” se apresentam inexoráveis. Dizer o que se pensa e escutar também, com aquela paciência que não se encontra na vulgaridade do egoísmo pretensioso. Talvez por isso não seja tão fácil fazer a contabilidade dos verdadeiros amigos. Camilo Castelo Branco, o grande literato português, já exclamava: “Amigos, cento e dez ou talvez mais eu já contei/Supus que sobre a terra não havia mais ditoso mortal entre os mortais”. E o triste lamento que se lhe segue: “Um dia adoeci profundamente: ceguei/Dos cento e dez houve um somente que não desfez os laços quase rotos”.

Quanto a mim, posso proclamar um nome para o qual tais laços não se romperiam diante da minha cegueira. Nem mesmo se desgastariam. Alfredo Moacyr Cabral. Há cinquenta e três anos, desde que o conheci ainda nas aulas da escola “Sólon de Lucena”, Alfredo tem sido meu companheiro fraterno, o confidente em cujos ombros deposito minhas mágoas e de cuja boca recebo sempre as mais ternas e compreensivas palavras quando a vida desanda a me atormentar.

Dei o seu nome a um dos meus filhos. E quando o meu Alfredinho sofreu acidente gravíssimo que quase lhe tirou a vida apenas iniciada, Alfredo Cabral não lhe deixou a cabeceira, constante na solidariedade e incansável na tentativa de consolar os pais que se abatiam diante da brutalidade da ameaça que então pairava inclemente. Era o Alfredo Cabral de sempre.

Cavalheiro por formação e convicção, dele alguém jamais presenciou uma grosseria até porque, firme nos seus propósitos, sabe, como cidadão e como advogado (dos melhores, que é) sustentar seus pontos com a firmeza necessária, sem descambar para a perda da lhaneza. Isso, digo-lhes, é impensável. Alfredo Cabral é a essência da gentileza e, se é certo que o cavalheirismo verdadeiro já não anda tão em voga, é ele um remanescente autêntico da espécie, a todos encantando com seu falar escorreito e impecável educação, tanto mais admirável quando se sabe que foi criado em lar paupérrimo, contando apenas com o apoio de dona Cândida e dona Vivi, mãe e tia que nos legaram essa preciosidade.

A elas, e em sua memória, agradeço por o terem feito. E através de ti, meu amigo Alfredo Moacyr Cabral (como é sublime poder assim dizer!), transmito toda a minha sincera esperança de que a Humanidade, no Natal ou fora dele, encontre o caminho da paz e da concórdia, da convivência sem ódios e sem preconceitos, da prevalência da sabedoria sobre a ignorância. Isso será possível se se multiplicarem os seres humanos como tu. Obrigado por existires.

Feliz Natal.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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