16/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Beijos e satanás

Publicado em 17 de novembro, 2011

Nasci numa família católica, mas há muito tempo estou afastado das crenças e das práticas que as religiões, todas elas, exigem dos que lhes são ligados. Essa opção ateísta jamais me conduziu pelos perigosos caminhos da intolerância. Muito pelo contrário. É com absoluta tranquilidade que respeito os que buscam no desconhecido alguma solução para os problemas que os afligem, conquanto não possa negar que, diante dessa busca, invade-me uma sensação irreversível do inútil. Problema meu. Ninguém tem nada a ver com isso.

Bem por isso a mim não me pareceu de bom gosto a ideia publicitária da empresa Benetton, dando a lume uma peça de fotomontagem em que o papa Bento XVI aparece trocando um terno beijo na boca com o imã Ahmed al-Tayyeb. Confesso que fui ao dicionário para descobrir que a última figura detém, entre outras coisas, “título que os califas se atribuíram como chefes supremos dos muçulmanos”. E não se trata, aviso aos inimigos, de nenhuma manifestação homofóbica da minha parte. Apenas não gostei e pronto. Parece, aliás, que a agência encarregada da propaganda anda em período não muito fértil, porque, dizem, em outra peça semelhante, o tal beijo é trocado entre Hugo Chávez e Barak Obama. Há, no mínimo, uma ofensa à estética.

Mas se isso revela falta de criatividade ou, pelo menos, um desvio na busca de objetivos, já não se pode dizer o mesmo da iniciativa partida de um religioso tupiniquim, adepto, se não estou em engano, de uma seita pentecostal. Envolvido, como parece ser comum nas atividades da espécie, num perene combate ao satanás, esse senhor vem de lançar no mercado um spray que tem todas as semelhanças do mundo com os produtos que qualquer supermercado vende para afastar os insetos. Só que o dele promete tirar da pele dos incautos qualquer espírito maligno que ali se tenha instalado, seja qual for a forma por que tenha optado o coisa-ruim para efetuar a incorporação possessiva. Não é à toa que o novo produto traz o sugestivo nome de “Espanta Capeta”.

Aí a coisa resvala perigosamente para os domínios do Código de Defesa do Consumidor, isso se não adentrar de maneira sutil os terrenos da própria legislação criminal, na parte em que se cuida da proteção à boa-fé dos incautos e ingênuos. Que uma pessoa acredite no que bem entender é direito e problema dela. Já não se diga o mesmo se é ela induzida a gastar dinheiro com algo que tem cara, jeito e forma de picaretagem. E que, convenhamos, outra coisa não pode ser.

Tudo talvez seja reflexo do triste quadro apontado pelo IBGE, divulgando os resultados do censo do ano passado. Segundo eles, o Brasil possui hoje o número absurdo de treze milhões e novecentos mil analfabetos, retrato fiel da importância que os governos têm conferido à educação. Que essa situação seja revertida é desejo de quantos tenham o mínimo de amor pela Pátria. Até lá, o que não se pode permitir é que nossos compatriotas, que não lograram a autossuficiência educacional, sejam enganados e ludibriados por atores de fancaria. O mínimo de respeito é exigível e o Ministério Público, meu caro amigo doutor Francisco Cruz, está no dever de agir.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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