A Medicina amazonense está comemorando uma conquista que parecia distante: o envio do primeiro conjunto de fígado e pâncreas, prontos a serem transplantados, para São Paulo. O feito ocorreu ontem (23/08), com uma equipe da coordenadora estadual de Transplantes, médica Leny Passos, no hospital João Lúcio, quando Davi Araújo Portela, 24 anos, faleceu e teve os rins, fígado e pâncreas retirados. “Aproveitamos a presença do Dr. Tércio Genzini, de São Paulo, que levou fígado e pâncreas – sempre transplantados juntos – para a capital paulista”, informa Leny.
José Inácio Bezerra de Araújo, de 41 anos, e Paulo Jorge Fonseca de Araújo, de 51 anos, foram submetidos ao transplante na manhã desta quarta-feira (24/08), recebendo os rins doados por Portela. Ambos passam bem.
Foto: Roberto Carlos/ Agecom
A equipe teve, além de Leny e Genzini, os cirurgiões Raymison Monteiro e Ítalo Cortez, todos auxiliados pela enfermeira com treinamento em perfusão, infusão de líquidos que mantém o órgão viável, Hellen Figueiredo.
Genzini, hepatologista do hospital filantrópico Bandeirantes, em São Paulo, estava em Manaus ministrando palestras para especialistas quando ocorreu o óbito. A retirada e o processo de preservação dos órgãos terminaram por volta das 13h30 e ele embarcou, em voo comercial, às 15h45.
Acidente
Davi sofreu um acidente automobilístico em Rio Preto da Eva e chegou ao Pronto-Socorro João Lúcio à meia-noite do dia 14/08. Tinha um trauma crânio-encefálico, contusão temporal direita e hematoma subdural à esquerda. Dia 16/08 começou a ficar inconsciente e foi aprofundando o quadro de edema cerebral, entrando em coma.
Ontem, com a morte encefálica (cerebral) decretada, a família foi abordada e aceitou doar tudo, menos as córneas, para atender a desejo do doador. Genzini se propôs a retirar o pâncreas e o fígado. “O primeiro transplante de rins já começou, no hospital Santa Júlia, e o outro será feito amanhã. Teremos ainda um terceiro transplante, este de doador aparentado”, explica Leny Passos.
Transplante de fígado
O desafio da Coordenação Estadual de Transplantes, da Secretaria Estadual de Saúde (Susam), é preparar o ambulatório pré-transplante de fígado. Quatro cirurgiões participarão, nos próximos dias, de um treinamento no hospital Albert Einstein, em São Paulo, para capacitação em retirada, manutenção e implantação do órgão, até que o Estado atinja a autonomia em transplantes. Entre os médicos estarão os cirurgiões Sidney Chaloub e Raymison Monteiro.
Transporte
Uma curiosidade sobre o envio de órgãos de um Estado para o outro é que o processo burocrático é surpreendentemente simples. “O coordenador da central local pede autorização da Central Nacional de Transplantes, em Brasília, e emite um protocolo, autorizando que o órgão viaje, o que libera tudo na companhia aérea”, revela Leny.
Novos doadores
Desde que o Amazonas realizou os dois primeiros transplantes de rins com doadores falecidos, quando os receptores foram Nilson Gomes Pinheiro, 31, e Rivelino Jean da Costa, 39, ambos com alta e reagindo bem, quatro outros se propuseram a doar.
“É um resultado favorável do sucesso dessa primeira experiência. Um dos voluntários teve parada cardíaca, outro era do interior e estava esperando os familiares, perdendo o tempo de retirada, e agora houve a doação. Hoje, outro autorizou a retirada, mas a família não aceitou doar porque, evangélica, disse que o pastor não havia falado sobre essa possibilidade”, conta Leny.
Esse é um dado que preocupa. “Uma estatística afirma que 55% da população amazonense não é católica e é muito importante que pastores e igrejas evangélicas tenham consciência da importância da doação de falecidos, pelo bem que representa para os receptores”, explica a coordenadora estadual de Transplantes.
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