Pedro Malasartes, personagem que Câmara Cascudo classificou como “exemplo de astucioso, cínico, sem escrúpulos e sem remorsos”, cumprindo castigo, viu-se privado de comida. Deram-se um pedaço de pão e ele pediu café, para molhá-lo. Deram-lhe café e ele pediu mais pão, para acompanhar. E assim fez, até se fartar. Na alta enogastronomia funciona mais ou menos da mesma forma: uma comida mais saborosa, caça ou carnes assadas em geral pedem um bom vinho e o bom vinho pede uma boa comida… No final, tudo vai muito bem quando os dois se juntam à mesa.
Neste fim de semana, olhando fotos de um almoço, proporcionado pelo talento gastronômico do Ivanhoé Mendes, como sempre, me deparei com um belo leitão assado e seu acompanhante, o californiano Opus One. Disse-me o cozinheiro – e dona Inês, dona Valdete, Tâmera e Edi confirmaram – que o assado ficou desde a madrugada maturando, lentamente, para atingir o ponto espetacular em que chegou, macio, quase derretendo, sem perder o sabor.
Para acompanhar, uma salada com ervilhas frescas, cenoura picada, azeitonas e quinua real, originária da Bolívia e das mesas dos soberanos incas.
Mas o vinho, sem dúvida, merece comentário à parte.
O Opus One (obra-prima) resulta da fusão dos consagrados Robert Mondavi e barão Philippe de Rothschild, ou seja, das enologias tradicional europeia e do chamado Novo Mundo do vinho, representado pelo terroir californiano do Napa Vale, nos arredores de San Francisco.
Quem já visitou mais de uma vinícola sabe que elas são sempre iguais. As mais modernas mostram as cubas de aço inox, no lugar das antigas de carvalho, responsáveis pelo primeiro processamento do vinho, seguindo depois para a adega, onde ficam os barris de carvalho. Mondavi, na Opus One, criou um design novo, oferecendo ao visitante um enorme espaço vazio, onde aparecem somente as bocas dessas cubas maiores. Tudo feito na Itália e sob encomenda. A inovação, além do visual diferente, facilita muito o trabalho na época da vindima, uma vez que o pessoal não precisa subir nada para derramar o mosto nas cubas.
Os funcionários da Opus One, que atendem no confortável bar, onde se fazem as degustações e as vendas da casa – lá é mais caro que em Miami –, dizem que as três últimas safras disponíveis no mercado sintetizam bem o produto: 2005 tem o sabor tradicional, europeu, puxando mais para o barão; 2006 é californiano puro, forte, pronto para beber sem precisar de muito tempo respirando, características do trabalho de Mondavi; e 2007 é a síntese de ambos.

Os barris lotados com a safra do Opus One 2008, que deve estar chegando ao mercado, se é que ainda não chegou
Nesse (saudoso) dia, do leitão, o vinho principal foi o Opus One 2006. Combinação perfeita.
Veja mais notícias em Destaques