Na Série de Reportagens sobre cidades-sedes da Copa 2014, do CBN Total, programa diário nacional da rede de rádio, o repórter Leandro Mota, responsável pelo material de Manaus, fez um Raio-X duríssimo da capital amazonense. No final dessa matéria, você vai ouvir a íntegra da reportagem.
O repórter foi assistir Rio Negro 1 a 0 América, no estádio do Sesi, jogo no qual o time quase campeão da Série D do ano passado foi rebaixado para a Segunda Divisão do Campeonato Amazonense. Havia apenas 150 espectadores. E a presidente Bruna Parente afirma que o clube “cogita a possibilidade de fechar as portas”. O jornalista Carlos Zamith, do Baú Velho, vai mais fundo e afirma que “a tendência é acabar com o futebol local”.
Leandro relembra que cada partida no demolido estádio Vivaldo Lima dava em torno de R$ 5 mil de prejuízo. Com a nova arena, então… Ele entrevistou o presidente do Instituto Amazônico da Cidadania, Hamilton Leão, que entrou com ação contra a demolição do Vivaldão e até apresentou um projeto alternativo, do engenheiro Jerônimo Maranhão. Este, afirma que seu projeto faria um estádio igual e que custaria apenas R$ 200 milhões, contra os R$ 500 milhões do Vivaldão. “Engenharia não é quebrar tudo e construir de novo”, disse.
O advogado do Instituto Amazônico, Alcebíades Oliveira, afirma que o Vivaldão custou de R$ 350 milhões a R$ 400 milhões, mais R$ 25 milhões gastos na demolição, enquanto o novo sairá por R$ 500 milhões.
O contraponto ouvido pelo repórter é o coordenador da Unidade Gestora da Copa (UGC), Miguel Biango, que lembra: “O antigo estádio não tinha condições de atender às exigências de uma arena moderna”.
Os números da cidade também foram esgrimidos na matéria. “Manaus tem o 6º pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o 7º pior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). A rede de coleta e tratamento de esgoto alcança apenas 11% da cidade, segundo o IBGE”, diz Leandro. O sociólogo da Ufam Geraldo Vale lembra que “as obras de mobilidade não saíram do papel”; o escritor Márcio Souza é incisivo ao enfatizar que “o monotrilho é invasivo. Só existe em zoológico e parque de diversão. Talvez Manaus se torne um parque temático do que era uma civilização subdesenvolvida no século 20”; e Biango rebate dizendo que é “a solução mais adequada pro tamanho do problema que nós temos”.
As falhas graves apontadas pelo Ministério Público no projeto do BRT, que trafega em vias exclusivas, e o “orçamento que já explodiu”, segundo o cientista político da Ufam Gilson Gil, são alguns entraves à sede da Copa, sem contar o que ainda falta: “Ampliar aeroporto, aperfeiçoar o sistema de telecomunicações e expandir a rede hoteleira”.
Jaime Kuck, urbanista da Ulbra-AM, comete um ato falho, ao confundir Manaus com o Amazonas (“A arrecadação de Manaus é grande, R$ 12 bilhões ao ano” – na verdade o Governo do Estado pretende arrecadar este ano em torno de R$ 11 bilhões e a Prefeitura de Manaus arrecada cerca de R$ 2 bilhões), mas mira melhor: “Nosso problema é gestão. A Copa, cronologicamente, está muito perto para que todos esses problemas sejam resolvidos”, diz.
Minha opinião
Nada disso é segredo para nós, amazonenses. O que surpreende e choca alguns é a forma crua como esses dados foram reunidos. Mas jornalismo é assim mesmo, isento e direto. Repórter não tem que coonestar com propaganda oficial.
Ficamos chocados? Então vamos trabalhar para mudar tudo isso. O que não vale é contestar números do IBGE, talvez o órgão governamental de maior credibilidade no Brasil.
Todo político investido de cargo no Amazonas sabe que suas carreiras serão seriamente afetadas se o projeto da Copa do Mundo em Manaus fracassar. Inclusive os de oposição, que serão apontados como “culpados” pelas inúmeras ações que, no frigir dos ovos, acabam retardando o processo – oposicionista tem que trabalhar, se não quiser entrar nessa fogueira, apontando alternativas e brigando para dar o máximo de visibilidade a elas.
A pior notícia é que essas coisas todas não dizem respeito apenas à Copa do Mundo. Dizem respeito ao futuro de Manaus e do Amazonas, independente de haver ou não a competição.
A saída passa pela organização e luta da sociedade. Afinal, quem pode achar o máximo uma cidade onde uma dúzia de invasores de terra reúnem meia dúzia de Kombis e saem invadindo terrenos, de um lado para o outro, deixando tontas as autoridades?
Sem organização, planejamento e muita luta, até o faturamento de US$ 35 bilhões do Polo Industrial de Manaus acabará se virando contra nós, apontado como “derrame de renúncia fiscal”. Mesmo o prefeito Amazonino Mendes reconhece que fizemos “muito pouco” com a renúncia de impostos que o País nos deu, em todos esses anos de Zona Franca.
Como lembra o sociólogo Luiz Antonio, citando Jean Paul Sartre, “não importa o que digam de nós e sim o que nós fazemos com o que dizem de nós”.
É mais fácil organizar Manaus que mudar o que o resto do Brasil pensa de nós. E olhe que organizar essa cidade é uma tarefa de Hércules.
Não lamente. Lute. Participe. Se não for por nós, que seja por nossos filhos.
PS: Antes que alguém pergunte. Eu não tive conhecimento prévio de que Leandro Mota estava em Manaus. Mas isso não faz a menor diferença.
OUÇA A ÍNTEGRA DA REPORTAGEM DE LEANDRO MOTA, DA REDE CBN:
Manaus sede da Copa 2014 – CBN Brasil