Em franco e célere desenvolvimento, tanto pelo produtivo trabalho da administração local, capitaneada pelo infatigável Prefeito Nonato Lopes, quanto pela inserção do município na Região Metropolitana de Manaus- RMM e, ainda, pelo advento da ponte sobre o rio Negro, ligando-o por via terrestre à capital do Estado, Iranduba perde efetivamente as suas características de cidade interiorana.
Até aí, tudo certo; afinal de contas, isso é progresso. O que está errado e é deveras repugnante é desprezar a memória dos pioneiros que plantaram as sementes da inicialmente chamada vila de Iranduba, ou “Nova Iranduba”, considerando que o nome do lugar, que em tupi-guarani significa pau-de-mel, já houvera sido dado havia séculos.
Em maio de 1976, os primeiros “tapiris” (casebres de palha) começavam a ser erguidos, e em 24 de junho daquele ano as cerca de 80 famílias que já estavam residindo no lugarejo fizeram a sua primeira festa religiosa e, ao mesmo tempo, social. Surgia esta próspera e abençoada cidade, com forte vocação para a produção hortifrutigranjeira, e hoje, de igual modo, para o turismo e a produção de telhas e tijolos.
Iranduba foi fundada pelo saudoso e valoroso coronel Jorge Teixeira de Oliveira (“Teixeirão”), então Prefeito de Manaus, e administrada inicialmente pelo sargento João Dantas Cyrino, com a frutuosa parceria da comunidade, formada por cidadãos e cidadãs que migraram da várzea do rio Solimões, expulsas pela enchente.
De lá para cá, 35 anos transcorreram (sexta-feira, 24 de junho, é a data em que a cidade aniversaria), e centenas de heróis anônimos, que direta ou indiretamente contribuíram para o estágio que Iranduba atingiu, foram lançados na vala do esquecimento.
Sem nem um demérito às várias figuras ilustres da sociedade, e em particular da política amazonense, que já foram agraciadas pelo Poder Legislativo Municipal com o título de Cidadão de Iranduba e com a medalha Coronel Jorge Teixeira, destacando-se dentre elas o Senador e Ex-Governador Eduardo Braga, o atual Vice-Governador, José Melo, e, mais recentemente, o ex-Senador Bernardo Cabral, é mais do que justo honrarmos, de igual modo, aos homens e mulheres que antecederam a todos os que hoje governam ou legislam neste município.
Alguns, como o próprio “Teixeirão”, Pedro Honorato Silva (Bafafá), fundador da Liga Esportiva de Iranduba; Camilo Sales, que era para Iranduba o que Valdir Viana representava para Parintins; Alcimar Souza Duarte (Porfírio), um dos pioneiros de Cacau-Pirera, Manoel Francisco Campos (“Capitu”), entre outros, já partiram desta vida. Todavia, desbravadores como o Sargento João Dantas Cyrino, as professoras Georgete Nazário, Marly Nilo, Isabel Menezes, Izabel Franco Elias, o Missionário Isac Sicsu, primeiro Pastor Evangélico e primeiro padeiro da cidade, Sebastião Almeida dos Santos e Zuleide Vieira, dois dos pioneiros da área de saúde, só para citar alguns, ainda vivem e são mais do que merecedores dessas honrarias.
Urge, para tanto, que a Câmara de Vereadores, em consonância com as lideranças comunitárias locais, principalmente as que amplamente conhecem e valorizam as memórias da região, resgate a enorme dívida que o município tem para com eles (as).
A mesma recomendação vale para as futuras escolhas de nomes pelos quais passem a ser chamados os prédios públicos de Iranduba, tais como Escolas, Unidades Básicas de Saúde (UBSs), bem como as estradas, estádios de futebol etc. Até hoje, pouquíssimos deles são batizados com nomes de irandubenses que têm a ver com a história local.
Só para citar um exemplo, no ramal do km-26 da rodovia Manoel Urbano, zona rural do Município, há uma das várias escolas que foram construídas com recursos do Programa de Desenvolvimento Sustentával do Gasoduto Coari/Manaus. A unidade de ensino leva o nome da mãe do ex-Secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Virgílio Viana. Com todo o respeito que a senhora Maria Iolanda Mauricio Viana merece, não há ninguém mais digno dessa homenagem do que o produtor rural e morador daquela comunidade Guilherme Acássio, que ao longo de décadas, quando nem estrada ali havia, sempre ergueu a sua voz forte para clamar às autoridades do Município e do Estado por melhorias para a localidade, como o faz até hoje.
No distrito de Cacau-Pirera, onde há uma creche com o nome da ex-Primeira-dama do Estado Sandra Braga, que, com todo o respeito devido, só veio a Iranduba na última campanha eleitoral (portanto, não esteve presente na inauguração da obra que leva o nome dela), nunca foi lembrado o nome de uma das precursoras da Educação naquela comunidade, que foi a professora Eliana de Freitas Morais, primeira Gestora (à época Diretora) da Escola Senador João Bosco Ramos de Lima, entre tantos outros vultos históricos locais. Ainda bem que a Irmã Bruna Coderni, uma das figuras mais importantes nos primórdios da então vila de Cacau-Pirera, não foi esquecida!
Resgatar a história do nosso município é um dever de todos que amamos Iranduba e, cada um a seu modo e da forma como lhe é possível, contribuímos para o seu desenvolvimento, sem perder de vista as suas origens e sem lançar na vala do esquecimento os seus heróis, ilustres ou anônimos.
* J. Ray é radialista e poeta.