23/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A morte de Wendell e Dândari

Publicado em 08 de julho, 2010

Wendell Colares dos Santos, conhecido na noite como “Dândari”, codinome com o qual se travestia e fazia programas homossexuais, morreu na madrugada de domingo, violentamente, na esquina das avenidas Rio Branco e Djalma Batista, no Vieiralves. Por trás do crime, noticiado como mais um nas estatísticas de assassinatos da cidade, estão dois recordes juvenis do atletismo amazonense mantidos há mais de 10 anos e um sofrido drama humano.Leia a matéria sobre a morte de Wendell no site da CBN: http://bit.ly/aBwNnk (copie e cole no seu navegador/browse).

Conheci essa história quando fui editor de esportes de A Crítica. Wendell revelou, voltando do Campeonato Mundial de Atletismo Júnior de 1998, em Annecy, na França, onde integrou a seleção brasileira de atletismo, que tinha problemas financeiros e só permaneceria no esporte se encontrasse patrocinador capaz de rivalizar com o dinheiro que recebia fazendo programas nas ruas. Há quem diga que exagerou, mas, na época, dizia que ganhava R$ 3 mil contra uma bolsa esportiva de R$ 400.

Bem-humorado, Wendell afirmava que o atletismo servia para correr dos homofóbicos nas ruas.

Por trás dessa história, que terminou de forma tão trágica, há várias revelações. Todo um trabalho feito no esporte amazonense, no século passado – inclui-se aí vôlei, futsal, handebol, atletismo e até o futebol – foi por água abaixo no Século XXI, a partir do momento em que as secretarias estadual e municipal de Esportes se transformaram em meros cabides de acomodação política.

Quantos outros talentos iguais ou até superiores aos de Wendell não terão sido perdidos nesse processo? Esse rapaz, com o potencial que demonstrava, podia ter representado o Brasil numa Olimpíada, a partir de 2000.

Por outro lado, e talvez até mais importante, como é que a nossa sociedade pode se declarar sã, se perde alguém para o submundo de forma tão explícita? Se criamos alguém com uma auto estima tão baixa é porque não estamos sendo capazes de oferecer um ambiente onde a competição se dê por meios mais humanos – a educação, por exemplo – e a possibilidade de ganhar dinheiro fácil perca a força que manifestou na vida do atleta.

Não entro na onda de carimbar Wendell. Não acho que tenha sido “vocação para a safadeza” que o empurrou para a morte. Analisar por aí é um caminho fácil. Temos é que pôr a mão na consciência e reconhecer que a mão dele foi estendida e não soubemos recolhê-la para oferecer a segurança que pedia. E ele oferecia em troca um atleta, unzinho a mais, no deserto árido desse produto em que se tornou o Amazonas. Onde Sandro Viana, casado, pai, tem que lutar muito para continuar. Como Dândari lutou. E perdeu.

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