Estive na várzea, neste Carnaval, e, mais que isso, fui a Carabal. Pisar no chão igual àquele onde me criei, em meio ao aroma de mato molhado, o canto dos pássaros, as samaumeiras e o colorido das flores, emoldurados pelo rio Amazonas, é quase um renascimento.
Carabal vem a ser a fazenda de búfalos modelo, escola do curso de Engenharia Agrônoma da UniNilton Lins, ponto de visitação dos especialistas do Brasil e do exterior, próxima ao Remanso do Boto, em Itacoatiara. Lá se constata que, com manejo tecnicamente orientado, esses animais, tão ferozes em outros locais – eles se tornaram selvagens e perigosos, no Vale do Guaporé (RO) –, podem ser dóceis e atender pelo nome, feito cachorrinhos.
Misto de anfitriã, promoter, candidata a Madre Tereza de Calcutá, ativista política – incendiou a Ufam quando foi presidente do DCE, na década de 1980 –, Márcia Baraúna Pinheiro é também a administradora do local. Ela nos recebe, com o irmão Petrônio, a cunhada Rossi e funcionários extremamente dedicados, de um jeito carinhoso, transformando cada momento em deleite.
Os sentidos humanos, base do aprendizado, acumulam lembranças ao longo da vida. No filme “Ratatouille”, quando o chefe Remy prepara o prato típico francês para Ego, o crítico gastronômico ranzinza, este viaja pelas paisagens de toda sua vida, através da memória gustativa. Os olhos de Nikolai e Emília, casal búlgaro que nos honra com sua amizade, brilham todas as vezes que saboreiam um prato com tomilho, o tempero que cresce como mato nos arredores de Sofia, onde nasceram. Foi assim que me senti ao andar, atolando nas poças deixadas pelos búfalos, nessa região tão variada em árvores e pássaros. E o cheiro? Perto dos 50, revivi a infância.
As flores de Carabal, variadas, capturando olhares mais atentos, são um capítulo à parte. Só vendo. Ou mostrando. Confira você mesmo:
Caminhamos pela várzea, margeando o rio Amazonas, entre diversas árvores exóticas e eis que surge uma enorme samaumeira. É a própria árvore do filme “Avatar”, em todo seu esplendor. E logo depois uma árvore do pau mulato. E mais à frente uma sequência de tucumanzeiros – tucumã doce, assim como a manga, que vira lama no quintal.
E quando todos nos preparávamos para a volta, eis que Márcia e Petrônio nos chamam para uma visita à pequena capela, ao lado da casa principal. Ali estão as cinzas de Petronio Augusto Pinheiro e Iclé Baraúna Pinheiro, os patriarcas da família.
Petronio, fundador do Grupo Simões, ao lado de Antonio Simões e Osmar Alves Pacífico, pediu para voltar ao seringal onde nasceu, no interior de Eirunepé, tendo as cinzas jogadas no rio Juruá. Rosana, Petronio Filho, Ieda, Márcia e Rodrigo, os filhos dele, decidiram levar uma pequena parte para Carabal, o sítio que cultivou por tantos anos – as terras começaram a ser adquiridas por volta de 1989. Dona Iclé, que fez história na Fundação Nacional do Menor do Amazonas (Funabem-AM), durante muitos anos, decidiu lhe fazer companhia.
Entramos na capela. Petrônio explica a imagem emoldurada por ela. “Uma senhora, no Juruá, quando fomos levar as cinzas de papai, pediu que eu me identificasse como filho. Apresentei minha RG. Então me contou que recebeu esta santa do meu avô, a mantinha guardada há anos e chegara a hora de devolvê-la. Pedi que a embrulhasse e nós a traríamos. Ela se mostrou ofendida: ‘Não tem nada que embrulhar, meu filho. Isso não é mercadoria.Eu vou levar até lá’.” E foi assim que a santa, recuperada, chegou àquele lugar.
Só posso dizer que foi emocionante. Petrônio e Iclé, vocês conseguiram realizar o ideal de todos os pais, com filhos orgulhosos de suas memórias e dignos de tudo que construíram.
Vivemos, enfim, todos nós, sob o privilégio da hospitalidade dessa gente. Eu e Tereza estamos muito gratos. Inclusive pela companhia de tantos convidados ilustres e queridos, do pessoal da fazenda e de nossos novos irmãos, Adalto e Fabiana.
Dias maravilhosos. Muito felizes. Obrigado.