
Foto: Thamires Clair
A Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) esteve nesta segunda-feira (22) na comunidade Ilha do Tambaqui, em Humaitá (696 km de Manaus), para colher depoimentos de famílias afetadas por operações da Polícia Federal contra o garimpo no rio Madeira. A ação busca dar assistência jurídica gratuita a quem não consegue se deslocar até a área urbana.
Segundo a Defensoria, os atendimentos priorizam pessoas atingidas direta ou indiretamente pelas operações realizadas na última semana, que resultaram em impactos psicológicos, sociais e financeiros nas comunidades ribeirinhas.
Entre os relatos, o extrativista Antônio de Souza, 42 anos, disse ter vivido “uma guerra” durante a operação. Ele contou que os tiros atingiram a terra próxima de onde estavam sua esposa, sua filha e uma sobrinha de três meses, além de bombas de gás que o deixaram debilitado. Desde então, afirmou que precisa de remédios controlados para ansiedade e lembrou que a comunidade não tem acesso a água potável.
A dona de casa Tatiel Souza, 34 anos, relatou que os três filhos ficaram traumatizados ao presenciarem a ação enquanto estavam na escola próxima às embarcações. Segundo ela, as crianças passaram a reagir com medo diante de qualquer movimento diferente, correndo ao pensar que novas explosões poderiam acontecer.
No Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Humaitá, onde a Defensoria mantém atendimentos em parceria com a Prefeitura, Juciane Barreto, 31 anos, disse que sua residência foi invadida durante a operação. Os filhos, de 3 e 10 anos, inalaram fumaça de spray de pimenta, agravando problemas de saúde já existentes. Ela afirmou que a família não tem ligação com o garimpo, mas foi atingida porque pessoas em fuga se abrigaram em sua casa.
Além da Ilha do Tambaqui, a Defensoria programou atendimentos até quarta-feira (24) em outras localidades, como Uruapiara, a seis horas de Humaitá, onde vivem cerca de 30 famílias, e nas comunidades Laranjeiras e Santa Rosa, que somam 37 famílias. O reforço de defensores públicos e servidoras permitiu intensificar o trabalho iniciado em 15 de setembro, com coleta de informações, cadastros e registro de provas que poderão subsidiar medidas judiciais.
O defensor público Theo Costa ressaltou que os relatos servirão de base para ações de reparação, já que os prejuízos extrapolam a razoabilidade, com suspensão de aulas e impacto direto sobre a alimentação de crianças. Ele acrescentou que não basta a repressão isolada e que são necessárias políticas federais que ofereçam alternativas econômicas e cuidados sociais à população de Humaitá e Manicoré.
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