
Medicação poderá ser usada de forma preventiva em áreas de surto e complementará a ação de vacinas já em desenvolvimento. (Foto: Reprodução)
O Instituto Butantan está desenvolvendo um novo medicamento baseado em anticorpos monoclonais para combater o vírus Zika, com foco especial na proteção de gestantes. A iniciativa visa oferecer uma alternativa preventiva em regiões onde há risco de surto da doença, especialmente entre mulheres grávidas, que podem transmitir o vírus ao feto, resultando em malformações como a microcefalia.
Segundo o diretor do Instituto, Esper Kallás, os anticorpos monoclonais estão sendo desenvolvidos em escala farmacêutica na fábrica própria do Butantan, o que permitirá o início de estudos clínicos nos próximos anos. O medicamento é fruto de uma parceria com a Universidade Rockefeller, dos Estados Unidos, que licenciou os anticorpos após testes laboratoriais promissores.
O imunologista Michel Nussenzweig, responsável pela descoberta, isolou anticorpos com forte capacidade de neutralização do Zika e os testou com sucesso em modelos animais. Agora, o desafio é avançar para testes clínicos em humanos, o que deve incluir diversas etapas, desde a definição da dose ideal até a avaliação da segurança, especialmente para o uso em grávidas.
“O anticorpo monoclonal anti-Zika seria um medicamento preventivo, uma imunoterapia passiva onde a mulher receberia um anticorpo pronto. Seria uma das formas de proteger mulheres em idade reprodutiva, e principalmente as grávidas, de se infectarem pelo vírus durante a gestação”, explica Kallás.
O novo medicamento surge como uma resposta a possíveis novos surtos. Entre 2015 e 2017, durante a emergência em saúde pública causada pelo vírus Zika no Brasil, 4.595 crianças nasceram com microcefalia, número alarmante se comparado aos 6.267 casos registrados ao longo de toda a década anterior (2010–2019).
Apesar do avanço, o anticorpo monoclonal não substitui o desenvolvimento de uma vacina, que também está sendo estudada pelo Butantan. Segundo o instituto, o mAb (anticorpo monoclonal) pode ser utilizado como medida complementar, especialmente em situações onde a proteção vacinal não é garantida.
“O mAb pode servir como um reforço, principalmente em áreas onde mulheres não foram vacinadas ou quando há dúvida sobre a eficácia prolongada do imunizante. Nenhuma vacina oferece 100% de proteção”, afirma Kallás.
A pesquisa ainda está em estágio inicial e deve seguir rigorosas etapas de validação antes de ser aplicada em larga escala. Se os testes clínicos confirmarem sua eficácia e segurança, o anticorpo monoclonal poderá se tornar uma importante ferramenta de combate à Zika, principalmente para proteger gestantes em áreas de maior risco.