05/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Roraima, o Estado que está dando capote no Amazonas

Publicado em 01 de maio, 2025

Roraima

Roraima recebe centenas de carretas do tipo bitrem, para transporte da soja. Na foto, um desses caminhões desbrava a BR-319, no meio da lama, poeira e buracos

Capote é uma expressão típica do dominó, um jogo que está entre os preferidos dos amazonenses, ideal para um feriado como hoje (1º/05). Refere-se a quando uma dupla chega aos 200 pontos e vence, sem permitir que os adversários passem da metade, os 100 pontos. É uma humilhação, para os inveterados. Roraima, o Estado mais excluído do Brasil, está dando um capote em desenvolvimento no Amazonas.

Por que o mais excluído? Simples: pequeno (717.793 habitantes, segundo IBGE/2024), ligado ao resto do País apenas pela BR-174 (Manaus-Boa Vista), tem que passar por Manaus para sair, via rodoviária. Para completar, o descalabro de Hugo Chavez e Nicolas Maduro, na Venezuela, provocou um crescimento de mais de 50% na população, formada por desabrigados, homeless, desesperançados… E, se não fosse suficiente, as companhias aéreas andaram boicotando a cidade e Boa Vista ficou ainda mais isolada.

O que se vê, no entanto, no lugar daquelas caravanas de choramingo, que o Amazonas costuma fazer, rumo a Brasília, em defesa da Zona Franca, é muita prosperidade. O amazonense, repentinamente, viu centenas de carretas do tipo bitrem romperem a BR-319, vindas de Porto Velho (RO), rumo a Boa Vista. Só depois veio a informação de que iam transportar a colheita de soja, hoje a locomotiva da economia roraimense.

Falar em soja, na Amazônia, é um sacrilégio que faz os ecoxiitas vermelhecerem de indignação. Mas, em Roraima, o agro está explorando milhares de hectares de campos naturais, onde não é preciso desmatar nada para plantar o grão. Há desmatamento em área de floresta? Deve haver, mas a ministra Marina Silva, tão eficiente na defesa da Amazônia, deve estar de olho nisso.

O que se sabe é que os silos para grãos florescem como erva do campo, em Boa Vista e arredores.

O emprego sobra. A produção de soja, que em 2021 foi de 226 mil toneladas, segundo o governo do Estado, atingiu 420 mil toneladas em 2024. E há estimativas de que ultrapasse 1 milhão de toneladas nos próximos anos.

Nada tão expressivo assim. O maior Estado produtor, o Mato Grosso, afinal, ostenta 44 milhões de toneladas/ano, numa produção nacional que passa de 147 milhões de toneladas/ano. Tocantins, inteiramente dentro da Amazônia Legal, atingiu 4,3 milhões de toneladas/ ano.

A produção de Roraima, ainda assim, é suficiente para alavancar a economia local. Foram anos de incertezas, com o fim da produção de arroz, ceifada pela Reserva Raposa Serra do Sol, mais a imigração venezuelana e o isolamento geográfico. Agora, essa “pequena” produção de soja lota o tráfego nas rodovias BR-174 e AM-010, rumo aos portos de Itacoatiara, num movimento econômico que o Amazonas apenas vê passar. Consome quase toda a produção de gás natural da Eneva, em Silves e Itapiranga – mais de 80% da energia de Boa Vista é produzida com gás natural.

O Amazonas parte para mais uma eleição de governador. Candidatos têm sido pródigos em mostrar o retrovisor e apresentar realizações passadas. O Estado precisa é olhar além do para-brisas, para a frente. Porque a Zona Franca de Manaus (ZFM) perdeu toca-fitas, cd, dvd, rádio e diversos outros produtos, para a virada tecnológica dos APPs de smartphones. Com a tecnologia caminhando na velocidade da luz, o castelo de cartas da ZFM pode ruir a qualquer momento, levando consigo a UEA (quase 100% financiada pelo modelo) e parte substancial dos quase R$ 40 bilhões de orçamento anual.

O senso comum costuma imaginar Roraima, na escala de Estados “coitadinhos” do Brasil, muito mais “coitado” que o Amazonas. O conceito precisa ser revisto porque, quando fecha a BR-174, falta da melancia ao cheiro-verde nas feiras de Manaus. E o agro está reinvestindo o dinheiro da soja em Boa Vista, tornando-se bem de raiz, coisa que a indústria da ZFM não faz por esta capital.

Este editorial não defende a produção de soja no território amazonense. Tampouco o fim ou mesmo o arrefecimento da defesa da Zona Franca. Longe disso. Mostra apenas que há saídas. Basta procurar. Está na hora de sair desse capote.

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