
Num dos melhores momentos do Festival, a Rainha do Folclore do Caprichoso, Brena Dianná, joga capoeira no conjunto de danças que apresentou ao som da toada “Amazônia, nas cores do Brasil”. Foto: Diego Janatã/ Free Lance
Não foi a voz do levantador David Assayag, nem o bailado de Brena Dianná, Sinhazinha da Fazenda, ou a força da toada “Amazônia nas cores do Brasil” ou sequer o brilho da empolgada torcida azul e branco. O Garantido acusa o Caprichoso de ter alcançado a vitória no 50º Festival Folclórico de Parintins recorrendo a um expediente que durante 15 anos foi usado pelo próprio vermelho e branco, a manipulação de jurados pelo Comando Delta.
Com nota 10 no item “ritual indígena” (4), que sequer apresentou na noite do dia 26/06, por causa da forte chuva, o Caprichoso venceu. Uma escuta telefônica que vazou na tarde de sábado e chegou a ser apresentada na passagem de som do Garantido domingo (28/06), no Bumbódromo, revelava um suposto esquema de compra dos jurados, que ficou patente à medida que as notas eram apresentadas. “Vai ser 10 a 9,5 e 9,0”, anunciou uma das vozes flagradas na escuta, o que ficou confirmado na votação.
O Caprichoso venceu as três noites. A primeira por 417,4 a 413,9 do Garantido. A segunda noite por 418,3 a 416,5. E a terceira por 418,6 a 411,4. O resultado final foi 1.254,3 pontos do azul e branco contra 1.241,8 do vermelho e branco.
“Isso faz parte do festival”, desconversou o presidente do Caprichoso, Joilto Azedo, após o resultado. “Nossa diretoria se desfez de um grupo que ‘armava’ resultados, que fazia o mal, e eles foram absorvidos pelo Caprichoso. O resultado é esse aí”, disse o presidente do Garantido, Adelson Albuquerque, que pediu desculpas aos patrocinadores e torcedores.
Foram 15 anos em que o Garantido se valeu do “trabalho” do grupo autodenominado “Comando Delta”, que tem à frente o ex-superintendente da Caixa Econômica Federal no Amazonas e ex-presidente da Superintendência de Habitação (Suhab), Armando do Valle, e o teatrólogo Francisco Cardoso. Valle foi rejeitado por uma parte do Caprichoso e teve que agir nos subterrâneos. Cardoso foi admitido como presidente da Comissão de Arte, ou seja, o comando de toda a preparação do chamado Boi de Arena. “Ele é um artista renomado e que vai ter a oportunidade de se defender. Quem o acusa que apresente as provas”, disse Joilto Azedo.
O Ministério Público Estadual (MPE) já anunciou que vai investigar o Festival, que teve este ano R$ 13 milhões de investimento do Governo do Estado – um dos menores da história da festa.
A opinião do portal
Este portal, que tem ligações históricas e conhecidas com Parintins e o Boi Bumbá Caprichoso, não concorda, nem pode concordar com quaisquer tipos de arranjos para obter resultados na festa. Caprichoso e Garantido estão acima disso. Não dá para concordar nem com o torcedor cego de paixão que afirma: “Eles roubaram o tempo inteiro e jogavam na nossa cara as vitórias. Agora chegou nossa vez”. Fosse assim e seria lícito seguir o exemplo dos ladrões que estão nas penitenciárias ou dos assassinos ou dos estupradores.
Crime é crime, não importa se praticado por um ou por outro, por azul ou por vermelho. Não há crime maior que abusar da boa fé de um povo criativo e festeiro, como é o parintinense, que, apesar de todas as evidências, fez festa pela vitória do Caprichoso e se entristeceu com a derrota do Garantido, como se o resultado refletisse a opinião sincera de jurados comprometidos com a isenção.
É preciso tomar providências. O MPE está desafiado a comandar investigação policial para chegar aos fatos. Se houver dirigente de bumbá envolvido em falcatrua, hoje ou ontem, tem que ir para a cadeia.
O Festival atingiu o limite. Está em evidente fadiga de material. Os dirigentes conseguiram enlamear o trabalho de 100 anos dos bumbás – o portal contesta esse número, mas é o oficial – e de 50 anos do Festival de Parintins.
É preciso ter humildade para seguir o exemplo do Carnaval do Rio de Janeiro, onde os contraventores do jogo do bicho tiveram a sabedoria de parar com a guerra de bastidores e constituíram um corpo de jurados profissional. Esse grupo, formado por cariocas ilustres, especialistas nas áreas que julgam, é remunerado e se reúne o ano inteiro, formando um banco que é sorteado às vésperas do Carnaval. Eles têm que, no dia seguinte, prestar contas das notas que oferecem, podendo ser eliminados se levantarem suspeitas.
No Festival de Parintins, o jurado dá a nota e antes que sejam abertos os envelopes voam para suas terras, deixando o “pepino” do resultado para os bumbás. Este ano, o presidente da comissão julgadora resolveu ficar e ofereceu um show de arrogância na leitura das notas.
Isso tem que mudar. Ou muda ou o Festival acaba.
Desonestidade nunca pode ser motivo de alegria para quem é honesto. Jamais.
O áudio da escuta
Veja abaixo o áudio publicado pelo Garantido no Bumbódromo, legendado, com escuta telefônica supostamente contendo diálogos atribuídos a Chico Cardoso, Armando do Valle e Kid, cognome de Rosquilde: