11/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Ufam conta a história do venezuelano que revalidou diploma e é advogado em Manaus

Publicado em 09 de setembro, 2021

Eliud Rafael Blanco Hernandez vendeu produtos nos sinais de Manaus e trabalhou como sapateiro antes de conseguir revalidar o seu diploma de Direito. Foto: Divulgação

Assim como no Brasil, em outros países, é comum um cidadão estudar, cursar uma faculdade ou um curso técnico e, com isso, construir uma carreira. Esse era o sonho do venezuelano Eliud Rafael Blanco Hernandez, e ele conseguiu. O jovem cursou Direito no país de nascimento, fez mestrado em Direito Penal e Criminologia e assim conseguiu um emprego e uma moradia. Mas uma crise política e econômica fez com que o advogado saísse do seu país, abrindo mão de tudo por algo essencial na vida: sobreviver.

A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) contou a história desse sobrevivente, que entrou no Brasil por Boa Vista em 2017, vendeu produtos nos sinais de Manaus e trabalhou como sapateiro. Mas sempre com o sonho de voltar a exercer sua profissão, mesmo que longe de casa.

Semáforo

A entrada de Eliud Hernandez no Brasil se deu por Boa Vista (RR). Em Manaus, passou a trabalhar em um semáforo vendendo sucos, dindim e coco gelado. Também consertava sapatos para ganhar dinheiro e enviá-lo para a família na Venezuela. “O meu pai me ensinou, deixou esse legado e eu nunca pensei em fazer isso, mas a vida fez com que eu apreciasse esse aprendizado”, diz Eliud.

Devido à grande concorrência, Eliud e a esposa Jennifer decidiram vir para Manaus. Chegaram em março de 2018, cinco meses após a entrada no território nacional. No Centro, conseguiu um local onde colocar sua mesa e continuou a trabalhar como sapateiro. “Primeiro foi perto do porto de Manaus, e depois fiquei bem na frente do Garajão. Eu ficava numa loja bem na frente que vendia coisas de som antigas e novas”, lembra.

O português foi um dos primeiros obstáculos encontrados por Eliud no novo país. E também um dos primeiros a ser superado por ele, graças à força de vontade de vencer. “Com muita dedicação, aprendi do zero. Aprendi devido à grande necessidade, era aprender ou aprender pois não tinha outra opção”, comenta.

OAB

Um dia, por meio de um amigo, Eliud conheceu um pastor que, sabendo que ele era advogado, sugeriu-lhe procurar a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/AM). “Pedi para falar com alguém da diretoria e me encaminharam com a doutora Ida, que era, à época, secretária geral da OAB/AM. Eu falei com ela, contei a minha história. Ela ficou emocionada e falou com o presidente Marco Aurélio Choy. Ela marcou no dia seguinte comigo e quando cheguei para falar com ela, já estava tudo preparado, até o lugar onde eu iria trabalhar que era o Tribunal de Ética”, conta.

E assim, trabalhando como auxiliar administrativo na OAB, Eliud deu o primeiro passo para conseguir uma melhor situação de vida em seu novo país. Mas ele queria mais. Ciente de que poderia validar o seu diploma de Direito no Brasil, o venezuelano não teve dúvidas e procurou a Ufam para iniciar o processo. “Eu já estava procurando essa informação, pois minha meta desde o início era essa [validar o diploma]. Pesquisando na Internet, eu li no site da Ufam uma portaria que trata sobre o procedimento de revalidação. Eu fui à Ufam e me orientaram, me deram o suporte necessário para entrar com o pedido”.

Para atingir seu objetivo, Eliud precisava cumprir a carga horária exigida no processo de revalidação. Para isso, voltou a estudar. Cursou duas disciplinas práticas da Faculdade de Direito por dois períodos e, em 2020, conseguiu ter o seu diploma validado no país. “Eliud sempre foi um aluno bastante dedicado. Em que pese as dificuldades inerentes a todo imigrante, sobretudo aqueles que deixaram a Venezuela em razão das instabilidades política e econômica, ele nunca perdeu a esperança. Com bom ânimo,  enfrentava – e ainda enfrenta – as adversidades impostas pela vida”, destaca o professor Marcos Maurício.

Foto: Divulgação

Sonhos e planos

A próxima etapa era clara: a prova da OAB. Depois de muito estudo e dedicação, Eliud realizou o exame e, na última segunda-feira (6), se tornou o primeiro venezuelano – dos que imigraram para o Brasil desde 2015 – a ser aprovado na avaliação da Ordem no Amazonas. “Estudei bastante. Fiz uma pós-graduação simultaneamente à revalidação, esta pós-graduação e os conhecimentos que adquiri na Ufam no NPJ-1 e NPJ-2 [Núcleo de Prática Jurídica 1 e 2] mais o TED [Tribunal de Ética e Disciplina] da OAB/AM, me ajudaram muito, além de fazer curso no Instituto de Direito Aplicado com o professor Felipe Braga”.

Agora, já com a família no Brasil e com permissão de trabalho em sua área, Eliud tem novos sonhos e planos para correr atrás. “Dependendo das circunstâncias, pretendo concursar como delegado, docente, contribuir na política de educação, montar o meu próprio escritório e retribuir ao Brasil o que tenho recebido; me considero uma pessoa filantrópica e quero ajudar aos imigrantes e nacionais brasileiros”, afirma.

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