
Eliud Rafael Blanco Hernandez vendeu produtos nos sinais de Manaus e trabalhou como sapateiro antes de conseguir revalidar o seu diploma de Direito. Foto: Divulgação
Assim como no Brasil, em outros países, é comum um cidadão estudar, cursar uma faculdade ou um curso técnico e, com isso, construir uma carreira. Esse era o sonho do venezuelano Eliud Rafael Blanco Hernandez, e ele conseguiu. O jovem cursou Direito no país de nascimento, fez mestrado em Direito Penal e Criminologia e assim conseguiu um emprego e uma moradia. Mas uma crise política e econômica fez com que o advogado saísse do seu país, abrindo mão de tudo por algo essencial na vida: sobreviver.
A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) contou a história desse sobrevivente, que entrou no Brasil por Boa Vista em 2017, vendeu produtos nos sinais de Manaus e trabalhou como sapateiro. Mas sempre com o sonho de voltar a exercer sua profissão, mesmo que longe de casa.
A entrada de Eliud Hernandez no Brasil se deu por Boa Vista (RR). Em Manaus, passou a trabalhar em um semáforo vendendo sucos, dindim e coco gelado. Também consertava sapatos para ganhar dinheiro e enviá-lo para a família na Venezuela. “O meu pai me ensinou, deixou esse legado e eu nunca pensei em fazer isso, mas a vida fez com que eu apreciasse esse aprendizado”, diz Eliud.
Devido à grande concorrência, Eliud e a esposa Jennifer decidiram vir para Manaus. Chegaram em março de 2018, cinco meses após a entrada no território nacional. No Centro, conseguiu um local onde colocar sua mesa e continuou a trabalhar como sapateiro. “Primeiro foi perto do porto de Manaus, e depois fiquei bem na frente do Garajão. Eu ficava numa loja bem na frente que vendia coisas de som antigas e novas”, lembra.
O português foi um dos primeiros obstáculos encontrados por Eliud no novo país. E também um dos primeiros a ser superado por ele, graças à força de vontade de vencer. “Com muita dedicação, aprendi do zero. Aprendi devido à grande necessidade, era aprender ou aprender pois não tinha outra opção”, comenta.
Um dia, por meio de um amigo, Eliud conheceu um pastor que, sabendo que ele era advogado, sugeriu-lhe procurar a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/AM). “Pedi para falar com alguém da diretoria e me encaminharam com a doutora Ida, que era, à época, secretária geral da OAB/AM. Eu falei com ela, contei a minha história. Ela ficou emocionada e falou com o presidente Marco Aurélio Choy. Ela marcou no dia seguinte comigo e quando cheguei para falar com ela, já estava tudo preparado, até o lugar onde eu iria trabalhar que era o Tribunal de Ética”, conta.
E assim, trabalhando como auxiliar administrativo na OAB, Eliud deu o primeiro passo para conseguir uma melhor situação de vida em seu novo país. Mas ele queria mais. Ciente de que poderia validar o seu diploma de Direito no Brasil, o venezuelano não teve dúvidas e procurou a Ufam para iniciar o processo. “Eu já estava procurando essa informação, pois minha meta desde o início era essa [validar o diploma]. Pesquisando na Internet, eu li no site da Ufam uma portaria que trata sobre o procedimento de revalidação. Eu fui à Ufam e me orientaram, me deram o suporte necessário para entrar com o pedido”.
Para atingir seu objetivo, Eliud precisava cumprir a carga horária exigida no processo de revalidação. Para isso, voltou a estudar. Cursou duas disciplinas práticas da Faculdade de Direito por dois períodos e, em 2020, conseguiu ter o seu diploma validado no país. “Eliud sempre foi um aluno bastante dedicado. Em que pese as dificuldades inerentes a todo imigrante, sobretudo aqueles que deixaram a Venezuela em razão das instabilidades política e econômica, ele nunca perdeu a esperança. Com bom ânimo, enfrentava – e ainda enfrenta – as adversidades impostas pela vida”, destaca o professor Marcos Maurício.

Foto: Divulgação
A próxima etapa era clara: a prova da OAB. Depois de muito estudo e dedicação, Eliud realizou o exame e, na última segunda-feira (6), se tornou o primeiro venezuelano – dos que imigraram para o Brasil desde 2015 – a ser aprovado na avaliação da Ordem no Amazonas. “Estudei bastante. Fiz uma pós-graduação simultaneamente à revalidação, esta pós-graduação e os conhecimentos que adquiri na Ufam no NPJ-1 e NPJ-2 [Núcleo de Prática Jurídica 1 e 2] mais o TED [Tribunal de Ética e Disciplina] da OAB/AM, me ajudaram muito, além de fazer curso no Instituto de Direito Aplicado com o professor Felipe Braga”.
Agora, já com a família no Brasil e com permissão de trabalho em sua área, Eliud tem novos sonhos e planos para correr atrás. “Dependendo das circunstâncias, pretendo concursar como delegado, docente, contribuir na política de educação, montar o meu próprio escritório e retribuir ao Brasil o que tenho recebido; me considero uma pessoa filantrópica e quero ajudar aos imigrantes e nacionais brasileiros”, afirma.