
Enchente nas ruas do Centro fez mudar o cenário, como se vê na foto, retirada de vídeo da Prefeitura.
Quando se falava em enchente no Amazonas, durante mais de meio século, o ano emblemático era 1953, com o rio Negro em 29,69 metros. Até que, em 2009, a marca chegou a 29,77 metros e, em 2012, atingiu 29,97. Agora, embora ninguém saiba até quando, o recorde é deste ano, 30,02 metros, derrubando a icônica “cota 30”. Um “repiquete” trouxe o rio a este nível, depois de nove dias parado e vazante de um centímetro, no dia 16/06. Repiquete é quando o rio está descendo e, de repente, volta a subir.
Essa história está marcada pelo cenário do Centro de Manaus. A avenida Eduardo Ribeiro, em grande parte submersa, recebeu pontes para pedestres construídas pela Prefeitura. A via mais importante do Centro, que abriga o Teatro Amazonas e outros prédios históricos, foi construída aterrando igarapé. Pura ironia do destino que agora o “igarapé” esteja sobre ela.
As cenas de pedestres atravessando nessas passarelas, descortinando vistas tradicionais, como a do Relógio Municipal, são sensacionais. Teatro alagado? Só para cartunista, desenhando com bom humor, porque o prédio fica a distância segura do rio Negro. Se alagar, algum dia, será um novo dilúvio.
A Feira da Manaus Moderna, maior centro abastecedor da Manaus atual, foi totalmente tomada pelas águas. A Prefeitura teve que transformá-la na maior feira fluvial do País, ao colocá-la sobre balsa, em pleno rio Negro.
Os comerciantes das proximidades, que já haviam elevado os pisos de seus estabelecimentos, terão que refazer obras. Também ficaram alagados.
As galerias de esgoto, construídas pelos ingleses no apogeu do Período da Borracha, alagaram e transbordaram. Os ingleses administravam o porto de Manaus e construíram grande parte do Centro, a partir daí. Não é à toa que o cais histórico da cidade se chama Roadway. A vigilância sanitária teme pela saúde pública na área e tem jogado cal na água fétida.
Fica muito claro: a capital da Zona Franca precisará se repaginar para enfrentar enchentes assim, que estão se tornando quase corriqueiras.
Males da vida moderna? Natureza cobrando o preço do solo impermeabilizado pelo asfalto? Assoreamento dos rios? O ex-secretário estadual de Cultura, advogado, historiador e presidente da Academia Amazonense de Letras (AAL), Robério Braga, afirma que em 1.909 houve a “maior enchente”. E Manaus era um Porto de Lenha, sem nada disso.
A Prefeitura de Manaus publicou um vídeo que mostra grande parte desse cenário cinematográfico. A cidade vai lembrar dessas imagens. Pelo menos até que uma próxima cheia quebre o recorde.