06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Entrevista Irani Bertolini: ‘Empresários do Sul/Sudeste têm uma visão errada de Manaus. Não sabem que aqui é metrópole’

Publicado em 21 de junho, 2012

O empresário Irani Bertolini, 65 anos, chegou a Manaus em 1976, ano em que decidiu montar uma firma individual e abandonar a profissão de caminhoneiro. Dois anos depois, em 1978, nascia a Transporte Bertolini Ltda., empresa que hoje fatura cerca de R$ 450 milhões/ano e tem entre 3 mil a 3,5 mil funcionários, dependendo do período, com 19 filiais e mais de 100 balsas em operação nos rios da Amazônia. Na condição de presidente da Federação das Empresas de Logística, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia (Fetramaz), Bertolini é um dos principais responsáveis pela realização, em Manaus, no Studio 5, dias 26 a 28 deste mês, da 1ª Transpo Amazônia – Feira e Congresso Internacional de Transporte e Logística.

As metas do evento, embora ambiciosas, estão quase todas alcançadas antecipadamente: há cerca de 6,8 mil visitantes inscritos, entre especialistas e empresários do Brasil e de outros 17 países das Américas do Sul, Central e do Norte, com stands de 40 das principais empresas do setor, na região e no País.

Como presidente da Fetramaz, fundada há 9 anos e abrangendo os Estados de Roraima, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia e Acre, Irani, que é gaúcho de Garibaldi, criado em Bento Gonçalves, fala como amazonense. “Os empresários do Sul/ Sudeste precisam conhecer Manaus. A imagem que eles têm da cidade é antiga, sem saber que aqui é uma metrópole, com 7 mil trabalhadores empregados só no setor de transportes. Eles têm uma visão de fora para dentro. Nós temos a visão de dentro para fora”, afirma. Não é à toa que ele tem o título de cidadão do Amazonas.

Irani Bertolini é gaúcho, mas trabalha desde a década de 70 no Amazonas e tem o título de cidadão do Estado

Abaixo, a íntegra da entrevista que ele concedeu ao blog:

Blog do Marcos Santos – Como será essa feira que o senhor está organizando?

Irani Bertolini – É um evento internacional. Teremos reunião da Câmara Interamericana de Transportes (CIT), que abrange 18 países, e reunião da NTC (Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística), para discutir preços e tarifas do Brasil e da Amazônia, e reunião do conselho da Confederação Nacional de Transportes (CNT), entre outros eventos.

 

Blog – Como homem do transporte aquaviário, como é que o senhor vê essa questão de o Amazonas fazer quase 100% do transporte para o interior via fluvial e não ter porto, em quase nenhuma cidade?

Bertolini – A Bertolini teve que construir portos. Primeiro nós éramos rodoviaristas, depois entramos na navegação e aí tivemos que construir portos em Belém, Macapá, Santarém e Manaus, e estamos construindo outro em Porto Velho. Os portos públicos não são capazes de atender à demanda da região.

 

Blog – O senhor tem uma operação difícil, transportando para a Moto Honda. Como é a segurança nessa área, na região entre Manaus e Belém, principalmente?

Bertolini – Segurança é coisa séria no Brasil inteiro. A gente tem uma estrutura de transporte com escolta, caminhões rastreados, da saída da indústria até São Paulo ou ao Sul, via satélite, da AutoTrack, e também equipe de monitoramento dentro da empresa, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Pagamos empresa gerenciadora de risco, para poder chegar no prazo e entregar a mercadoria ao cliente, com segurança.

 

Blog – Mesmo assim, a Bertolini ainda tem perda de carga?

Bertolini – Com toda essa estrutura, o índice de perda nosso é pequeno, um dos menores do Brasil, mas ainda temos perdas sim. As quadrilhas hoje estão muito organizadas. Nós evoluímos e eles evoluíram mais que a gente.

 

Blog – Como é feita a segurança nos rios?

Bertolini – Temos problemas com a pirataria. A gente viaja com dois seguranças armados, de Belém até Santarém.

 

Blog – Vocês são atacados pelos chamados “ratos d’água”, aqueles ladrões que usam rabetas e atacam os barcos?

Bertolini – Também.

 

Blog – Qual é sua opinião sobre o asfaltamento da BR-319?

Bertolini – É o sonho de todo amazonense. Eu sempre digo que Manaus é uma ilha cercada de floresta e de água. O povo do Amazonas merece uma saída por terra e exercer o seu direito de ir e vir. Quando eu era caminhoneiro, na década de 1970, eu vinha pela BR-319, que era toda asfaltada. Agora tem essa discussão com relação às licenças ambientais, como se a estrada fosse nova. Espero que um dia sejam concedidas essas licenças e a estrada seja reaberta, nem que seja para ônibus, automóveis, utilitários. Só isso já será uma conquista para nós.

 

Blog – A estrada, funcionando, faria que diferença para o transporte de cargas no Amazonas?

Bertolini – A BR-319 permitia levar mercadorias para o Sul e trazer outras em quatro dias. Isso é muito importante para toda a nossa economia, mas dependemos das autoridades ambientais.

 

Blog – Hoje, esse mesmo trajeto, entre Manaus e São Paulo, é feito em quanto tempo?

Bertolini – Hoje levamos quatro dias até Belém e mais quatro até SP. São oito dias para fazer chegar uma carga na capital paulista.

 

Blog – Como o senhor vê a realização da Copa do Mundo em Manaus?

Bertolini – Isso é para 2014. Temos ainda 2 anos e meio para a gente se preparar. Para o Brasil acho que vai ser um evento muito importante. Para o Amazonas também, mas temos pouca infraestrutura para receber esse público que vem. Temos problemas de porto, aeroporto, transporte urbano. Espero que se resolva tudo a tempo.

 

Blog – A Bertolini comprou um porto no Encontro das Águas?

Bertolini – Comprou o porto Janjão e estamos providenciando legalização, licenças, para construir um novo porto, uma estrutura nova.

 

Blog – Qual é a sua opinião sobre o Polo Naval, que um grupo de empresários tenta implantar em Manaus?

Bertolini – É um novo distrito industrial e acho que vai trazer bastante benefícios também na economia de Manaus e gerar muito emprego. É viável e é factível. Depende dos incentivos fiscais que o Governo do Estado vai nos oferecer. O que nós temos, hoje, na indústria naval, é muito pouco. Hoje, o Governo do Estado nos dá com uma mão e tira com outro. Em outros Estados há incentivos de ICMS, PIS, Cofins, FTI, IPI, para o setor de transporte. Aqui, quando se tem isenção ICMS, tem um monte de outras taxas, como ajuda para UEA, FFT (Fundo de Fomento ao Turismo) e isso acaba virando custo para a gente.

 

Blog – Todos os convidados para a Transpo Amazônia estão confirmados? Como estão as inscrições?

Bertolini – Estão vendidos todos os espaços (stands) e temos já inscritos para palestras, aproximadamente, duas mil pessoas. Estamos esperando um público de 6 mil a 10 mil pessoas. Muita gente de fora do Amazonas estará visitando a gente.

 

Blog – Esses eventos todos em Manaus têm que tipo de reivindicação?

Bertolini – Vamos ter as melhores cabeças em logística de transporte do Brasil e das Américas e aproveitaremos para discutir todos os assuntos referentes a transporte e logística. O ponto principal é trazer esses empresários do Sul e Sudeste para conhecer Manaus. Eles têm um conceito antigo sobre a cidade. Manaus é uma metrópole, emprega mais de 7 mil funcionários e embarca, todos os dias, 350 carretas. Essa pujança eles precisam conhecer. E, depois, trazê-los para cá e estimulá-los a discutir os assuntos da Amazônia. Como empresários do Sul/ Sudeste eles enxergam de fora para dentro e nós temos a visão de fora para dentro. Acho que o resultado desse diálogo será benéfico para Manaus e para o País.

 

Blog – O senhor não teme o risco de mostrar um mercado tão pujante para a concorrência?

Bertolini – (Risos) É um mercado disputado tapa a tapa, palmo a palmo. Não é uma mina de ouro. É difícil transportar para a Amazônia porque isso depende tanto de navegação quanto de estradas. Nossos empresários são muito experientes, alguns com 30, 40 anos na região, e não é qualquer empresário do Sul que vai chegar aqui e nos trazer problemas na concorrência.

 

Blog – O senhor fala como amazonense e manauara com todo esse sotaque sulista, por quê?

Bertolini – (Risos) Sou gaúcho, nascido em Garibaldi (RS) e criado em Bento Gonçalves (RS), mas sou cidadão amazonense por título concedido pela Assembleia Legislativa.

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