18/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Armas vendidas para presos da facção FDN foram usadas na chacina do Compaj, diz inquérito

Publicado em 10 de novembro, 2017

Imagem de um dos vídeos divulgados com a conclusão do inquérito, que aponta, segundo documentos, que policiais e agentes penitenciários facilitaram entrada de armas mediante pagamento. Foto: Reprodução

Objetos proibidos entravam no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) conforme pagamento e uma tabela de preços. Pistolas com munição, por exemplo, custavam de R$ 1.500 a R$ 3.000.

Facões desviados da cozinha eram vendidos a R$ 200. Mediante pagamento de propina, policiais militares e agentes de ressocialização permitiram que chefes da facção criminosa Família do Norte (FDN) tivessem acesso a pistolas e facões dentro do maior presídio do Amazonas.

As armas foram usadas para assassinar rivais durante o “massacre de Manaus”. As informações constam de inquérito conduzido pela força-tarefa criada pela Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP) para investigar a chacina de 56 presos durante a rebelião do dia 1º de janeiro.

Controle do tráfico

Mais da metade dos mortos no maior massacre na história do Amazonas era ligado à facção rival da FDN, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Ambos disputam o controle do tráfico na Região Norte e no Brasil.

Segundo reportagem do Uol, que teve acesso a documentos do inquérito, a posse de tais armas por parte da facção foi crucial para que os criminosos atingissem o seu objetivo: praticamente exterminar “internos da facção rival e de outros presos em condições de vulnerabilidade”, afirmaram, no inquérito, os delegados responsáveis pela investigação.

“Por óbvio, dada a quantidade de material apreendido em poder dos rebelados, havia facilitação por parte de agentes do sistema penitenciário para o ingresso de armas de fogo, celulares, armas brancas e demais objetos de cunho proibido no referido Complexo Prisional”, apontou a força-tarefa.

Em 7 de abril deste ano, um detento prestou depoimento, sob sigilo, a um dos delegados que integravam a força-tarefa amazonense. Seu depoimento descreve como armas e outros objetos proibidos entravam no Compaj: parte do armamento era levada por policiais militares responsáveis pelas vigilâncias nas guaritas da muralha do complexo penitenciário.

“As armas eram encomendadas a donos de ‘bocas de fumo’ da cidade de Manaus pelos ‘líderes’ da FDN que estavam encarcerados no interior do Compaj”, disse o presidiário, em depoimento. A partir daí, os traficantes entravam em contato com os policiais militares e repassavam a estes as pistolas, de variados calibres.

Segurança

Titular da SSP do Amazonas até o começo de outubro, o delegado federal Sérgio Fontes afirmou que “as ações desses agentes públicos são isoladas” e que outros casos ocorreram após o massacre.

Para os delegados da força-tarefa da SSP amazonense, a facilidade com que chefes da FDN tiveram acesso ao armamento foi condição essencial para que o massacre de Manaus ocorresse.

Em nota à reportagem, a SSP-AM informou que os inquéritos referentes ao Compaj foram concluídos e entregues à Justiça. No decorrer das investigações, houve indícios da participação de um ex-diretor do presídio, um sargento da reserva da Polícia Militar, em possíveis atos ilícitos. Mas as investigações ainda estão em curso.

A SSP ressalta que, havendo provas do envolvimento de qualquer agente da segurança pública em atos ilícitos, os acusados irão responder, também, administrativa e disciplinarmente junto a Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança.

Na Justiça

O Juízo da 2ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Manaus decretou a prisão preventiva de 205 pessoas que teriam tido participação ou envolvimento na morte de 56 detentos durante rebelião no Compaj.

A Justiça acompanhou parecer do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE), e despachou em 27 de outubro, deferindo os decretos de prisão preventiva.

Na decisão, o Juízo determinou a prisão e custódia nos presídios federais de segurança máxima de 9 indiciados; mais 159 que encontram-se no sistema prisional amazonense em função de outros processos; e de mais 37 indiciados – estes, fugiram do Compaj durante as rebeliões e encontram-se foragidos.

Inquérito

A maior chacina entre presidiários ocorrida no Amazonas e no Brasil resultou no indiciamento de 210 detentos do presídio, conforme inquérito concluído pela Polícia Civil após 8 meses do massacre.

Foram realizadas perícias nos locais das execuções e assassinatos e análises das imagens das câmeras do circuito interno da unidade prisional.

O inquérito produzido tem mais de 2,6 mil páginas, entre oitivas, fotos, áudios, laudos de necropsia e DNA feitos nos corpos, tendo iniciado dia 9 de janeiro e sendo remetido à Justiça no dia 30 de agosto.

Durante as investigações, ficou comprovado que a chacina teve uma ordem externa, partindo do narcotraficante José Roberto Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa”, um dos criadores da FDN, considerado o terceiro maior grupo do país.

Veja mais notícias em Cidade

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.