
Foto: Elinaldo Tavares
PETA CID
Especial para o Portal do Marcos Santos
Na família Souza Teixeira, onde a tradição é passada de geração a geração, a matriarca de 83 anos, dona Clariza Teixeira, se tornou símbolo de amor, coragem e fidelidade às suas raízes. No dia de Santo Antônio, 13 de junho, ela escreveu mais um capítulo inesquecível de sua história ao hastear, com orgulho e emoção, a bandeira do Boi Caprichoso.
Erguer o pavilhão do boi preferido é tradição em Parintins, mas no caso de dona Clariza, se torna ainda mais emblemático porque a casa dela está localizada na “ilharga” do território contrário, porta de entrada do reduto vermelho, na orla do bairro São Benedito, bem na frente do tradicional clube Ilha Verde, da família Faria.
“Aqui ela não arreda. Agora, os contrários fizeram a casa temática deles aqui do lado da casa da vovó. Mas ela continua firme na tradição dela, sempre com respeito e a cada ano a festa aumenta”, contou o neto, Zandonaide Bastos.

Foto: Elinaldo Tavares
São 43 anos realizando a cerimônia sempre ao pôr do sol, com direito a rua enfeitada, tacacá, mungunzá, pato no tucupi e outras especialidades da culinária junina. Este ano, acompanharam o Boi Caprichoso, o presidente Rossy Amoedo, o presidente do Conselho de Artes, Ericky Nakanome e a “mãe” do boi, Odinéa Andrade, como é carinhosamente chamada.
Com a serenidade de quem viveu quase um século de memórias, dona Claroza mostra que a paixão pelo Caprichoso vai muito além da disputa: é identidade, pertencimento e herança cultural. O gesto representa a força de uma família que mantém viva a chama da tradição azul e branca, unindo filhos, netos, bisnetos e todos aqueles que aprenderam com ela o verdadeiro significado de amor ao boi da estrela na testa.
“Eu estou muito feliz, agradeço os amigos que vieram aqui, o Caprichoso é minha paixão e a minha bandeira eu tenho que levantar, não pode falhar. Já falei pros meus filhos que quero sempre a bandeira bem no alto”, avisou Clariza, que é mãe de Ana Maria, Maria José, Ana Isabel, Benedito Teixeira, Raimundo, Júlio Cesar, Romison e Ronison.

Foto: Elinaldo Tavares
Mais do que erguer uma bandeira, a matriarca ergueu a história de uma vida inteira dedicada às suas crenças e segue inspirando gerações com sua determinação, provando que a paixão que nasce no coração não envelhece, não se apaga e não conhece fronteiras.
“O papai Raimundo Paes Teixeira, era da batucada do Garantido. E a mamãe fazia a roupa dele, enfeitava o chapéu, mas nunca mudou de boi. Papai era irmão do Vavazinho, grande compositor das toadas. Mas os filhos são todos Caprichoso”, revelou dona Ana Maria, toda orgulhosa por ter os filhos Zandonaide Bastos, no Conselho de Artes e Geovane Bastos como compositor.
O presidente do Caprichoso, Rossy Amoedo, disse que naquele ato o bumbá estava celebrando não apenas uma grande torcedora, mas uma matriarca que se tornou exemplo de resistência, orgulho e tradição. “Ela carrega uma história tão linda e demarca seu território. Essa bandeira tremula como símbolo da força de uma família que honra seu passado e segue construindo seu legado para o futuro. E digo mais, onde tiver uma bandeira do Caprichoso, no Aninga, no Macurany, no Parananema, no Palmares, na Francesa, na avenida Amazonas, ali é território do Caprichoso”, afirmou.

Foto: Elinaldo Tavares
O orgulho de pertencer a uma nação que mantém viva essa herança, fortalecendo os laços que unem gerações em torno do amor pelo boi negro da Amazônia foi exaltado pelo presidente do Conselho de Artes, Ericky Nakanome. “Não podia ter local mais lindo pra viver essa emoção. No pôr do sol, no dia de Santo Antônio, onde há 43 anos é realizado esse hasteamento, inclusive entrando no reduto contrário, é uma alegria, um enxirimento, uma ousadia brincar de boi com essa família tão querida, um momento de devoção, fé e tradição”, ressaltou.
A bandeira de dona Clariza foi erguida ao som dos acordes da toada Vento Norte.
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