
Depois do embate pela Prefeitura, deputadas levam para a Assembleia a rivalidade política do maior colégio eleitoral do interior do Amazonas. (Foto: Reprodução)
Parintins exportou para Manaus uma das disputas políticas mais interessantes do Amazonas. Se até poucos meses atrás o duelo acontecia nas ruas, nos comícios e nas urnas do município, agora ele ganha uma nova arena: a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam).
De um lado está Mayra Dias (PSD), deputada estadual em primeiro mandato, ex-Miss Brasil, esposa do ex-prefeito Bi Garcia e principal representante do grupo político que governa Parintins há mais de uma década. Do outro, Brena Dianná (União Brasil), ex-vereadora, advogada, ex-Rainha do Folclore do Boi Caprichoso e principal liderança da oposição no município.
As duas têm algo em comum além da origem parintinense: construíram trajetórias públicas a partir de forte exposição popular, transformaram capital simbólico em capital político e hoje disputam praticamente o mesmo eleitorado.
A rivalidade ganhou corpo na eleição municipal de 2024. Brena foi candidata a prefeita e enfrentou o grupo liderado por Bi Garcia, que lançou e elegeu Mateus Assayag como sucessor. Naquele confronto, o resultado favoreceu Mayra e seu grupo político. Mateus venceu e manteve intacta a hegemonia construída ao longo dos últimos anos.
Mas a política raramente encerra disputas. Apenas muda o cenário.
Nesta terça-feira (2), Brena assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa e inaugurou oficialmente uma nova fase dessa concorrência. A vaga surgiu após Roberto Cidade deixar o mandato parlamentar para assumir o Governo do Amazonas. A primeira suplente da coligação, a vereadora Professora Jacqueline, preferiu permanecer na Câmara Municipal de Manaus, abrindo caminho para a posse da segunda suplente.
O simbolismo da chegada de Brena à Aleam vai além da matemática eleitoral. Ela se tornou a primeira mulher nascida em Parintins a exercer um mandato de deputada estadual e passa a ocupar um espaço político que, até então, era dominado por Mayra no município.
Em seu discurso de posse, a nova deputada procurou ampliar o alcance da própria atuação, afirmando que pretende representar não apenas Parintins, mas os municípios do interior do Amazonas.
“Eu assumo o cargo de deputada com gratidão, humildade e para representar não só Parintins, mas todo o povo do Amazonas, em especial os meus irmãos e irmãs do interior”, afirmou.
A fala dialoga diretamente com uma estratégia que tende a marcar seu mandato: transformar a expressiva votação obtida na disputa pela Prefeitura em uma plataforma política regional.
Enquanto Brena chegava ao plenário da Aleam, Mayra ocupava a tribuna para defender uma pauta de forte apelo local. A deputada voltou a cobrar do Governo do Estado a implantação permanente de uma unidade da Polícia Turística em Parintins.
O tema não foi escolhido por acaso. O turismo tornou-se uma das principais vitrines econômicas do município e a parlamentar busca associar sua atuação a uma agenda de desenvolvimento e fortalecimento da infraestrutura local.
“Parintins é uma cidade turística que recebe visitantes durante todo o ano. Precisamos de um ponto fixo da Politur para oferecer mais segurança e acolhimento a quem visita a nossa cidade”, argumentou.
A coincidência de agendas ilustra o que deve acontecer com frequência nos próximos meses. As duas deputadas falam para o mesmo município, disputam atenção do mesmo eleitorado e buscam protagonismo sobre os mesmos temas.
É uma disputa que, curiosamente, reúne perfis bastante diferentes.
Mayra representa a continuidade. É parte de um grupo político consolidado, com estrutura administrativa, forte presença institucional e resultados eleitorais consistentes. Nas projeções para 2026, aparece entre os nomes mais competitivos para renovar o mandato.
Brena representa a novidade. Chega à Assembleia carregando o discurso da renovação, a experiência de quem quase levou a disputa municipal para o segundo turno político permanente e a expectativa de se transformar na principal voz da oposição parintinense no cenário estadual.
Para os observadores da política amazonense, a rivalidade oferece um ingrediente raro: duas lideranças femininas, jovens, populares e com trajetórias próprias disputando a influência sobre o maior colégio eleitoral do interior do Estado.
Em um ambiente político historicamente dominado por homens, não deixa de ser uma mudança de roteiro.
A campanha para 2026 ainda está distante. Mas, em Parintins, a impressão é de que ela começou alguns meses antes do calendário oficial. Apenas trocou os palanques pela tribuna da Assembleia.
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