
Mulheres e meninas concentram tarefas de coleta, mas seguem fora das decisões no setor hídrico. (Foto: Reprodução)
Um novo relatório das Nações Unidas revela que a desigualdade de gênero ainda é um dos principais entraves para a segurança hídrica global. O estudo mostra que mulheres e meninas são as mais impactadas pela falta de acesso à água potável segura, mesmo sendo responsáveis pela maior parte da coleta em diversas regiões do planeta.
Divulgado nesta quinta-feira (19) pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em nome da ONU-Água, o Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos aponta que, em mais de 70% dos domicílios rurais sem abastecimento adequado, cabe às mulheres a tarefa de buscar água.
Apesar desse protagonismo na rotina doméstica e comunitária, elas ainda enfrentam exclusão nos espaços de gestão e liderança relacionados ao setor hídrico. Para o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, ampliar a participação feminina na governança da água é essencial para promover desenvolvimento sustentável.
Ele destaca que garantir acesso igualitário à água não se trata apenas de assegurar um direito básico, mas também de gerar benefícios coletivos. Na mesma linha, o presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) e da ONU-Água, Alvaro Lario, defende uma gestão compartilhada entre homens e mulheres, reconhecendo o papel central delas nas soluções para a crise hídrica.
O relatório foi lançado às vésperas do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, e traz um alerta: cerca de 2,1 bilhões de pessoas ainda vivem sem acesso à água potável gerida de forma segura, com impacto mais intenso sobre o público feminino.
A ONU aponta que a responsabilidade pela coleta expõe mulheres e meninas a uma série de riscos, incluindo esforço físico excessivo, prejuízos à educação, limitações econômicas, problemas de saúde e maior vulnerabilidade à violência de gênero — especialmente em áreas onde os serviços são precários ou inexistentes.
Entre os dados destacados, o estudo revela que mulheres e meninas dedicam, juntas, aproximadamente 250 milhões de horas por dia à coleta de água em todo o mundo. Meninas com menos de 15 anos têm maior probabilidade de realizar essa tarefa do que meninos da mesma faixa etária.
A precariedade das condições sanitárias também agrava as desigualdades. A ausência de infraestrutura adequada para higiene menstrual, por exemplo, tem impacto direto na frequência escolar e na participação social. Entre 2016 e 2022, cerca de 10 milhões de adolescentes, em 41 países, deixaram de frequentar escola, trabalho ou atividades sociais devido a essas dificuldades.
O documento ainda chama atenção para a desigualdade no acesso à terra, fator que influencia diretamente o direito à água, sobretudo em atividades produtivas como a agricultura. Em muitos países, homens possuem até o dobro de propriedades em relação às mulheres, o que amplia as disparidades econômicas e sociais.
Para enfrentar o problema, o relatório recomenda a adoção de medidas estruturais, como a eliminação de barreiras legais e institucionais, o investimento em dados desagregados por gênero, a valorização do trabalho não remunerado relacionado à água e o fortalecimento da presença feminina em áreas técnicas e científicas da gestão hídrica.