12/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Os Mat(h)eus que nasceram em berço contrário, onde o amor pelo boi escolhido fala mais alto

Publicado em 23 de junho, 2026

Os Mat(h)eus que nasceram em berço contrário, onde o amor pelo boi escolhido fala mais alto

Em Parintins, a famosa frase “o boi escolhe a gente” faz todo sentido. E é uma verdade que vai muito além dos visitantes que chegam à ilha da magia e se apaixonam por Caprichoso ou Garantido. Na maioria das vezes, essa escolha acontece dentro de casa, muito antes de qualquer pessoa entender o tamanho desse amor. E o mais incrível, a paixão pode ser “contrária”.

Sim, na ilha de todos os encantos, há histórias lindas de amor pelo boi do coração ou da estrela. São crianças como o Mateus Vieira e o Matheus Cavalcante, que cresceram ouvindo toadas do boi escolhido pelas famílias, convivem com a cor do boi estampada nas camisas e bandeiras, mas não tem jeito: nada muda o sentimento deles que nasceu Garantido e Caprichoso.

Mateus Vieira, 09, morador da rua Cordovil está na capa do Álbum do Caprichoso: Brinquedo que Canta seu Chão. Ele ama brincar de cavalinho e pra onde vai leva o brinquedo com ele. Já virou uma marca azulada.

Em um depoimento comovente, a mãe de Mateus, Thayana Santos se emociona ao falar desse amor. “Ele cresceu ouvindo o vermelho ecoar dentro de casa, vendo nossa família vibrar pelo Garantido. Mas, mesmo tão pequeno, teve coragem de escutar o próprio coração. E ele escolheu o azul”, revela.

Tradição

Thayana eternizou uma dedicatória ao filho: “Mateus, você me ensinou que amor não se impõe, se sente. Que tradição é linda, mas identidade é ainda mais forte. Você não escolheu contrariar ninguém, você escolheu ser você.

E eu, como mãe, só posso sentir orgulho.

Porque mais importante do que a cor que você veste, é a firmeza com que você sustenta o que ama. Seja sempre assim, meu filho: livre, verdadeiro e fiel ao que faz teu coração bater mais forte. Te amo além de qualquer cor, Mas confesso, ver você feliz sendo Boi Caprichoso me faz entender que o amor sempre encontra seu caminho”, escreveu.

A família ficou muito feliz pelo filho ser convidado a estar na capa do álbum do Caprichoso e o apoio a Mateus é incondicional. Agora ele está sempre em todos os eventos ganhando o carinho e a admiração dos torcedores.

Paixão garantida

Na história de paixão pelo Garantido, a de Matheus Cavalcante também é incrível. Ele cresceu no colo da mãe caprichosa, ouvindo as conversas da família e as toadas do azul. A mãe é da família Cruz, Mayra Cruz, onde o Caprichoso é rei. Mas ela foi casada com um perreché e o Mateus escolheu ser vermelho, numa dessas histórias que só o coração pode entender.

“Eu fui casada com um perreché. Então o pai sempre incentivou os meninos. O mais velho ficou com o pé lá e cá, mais para a Francesa. Já o Mateus, o mais novo, com três anos, ganhou um boizinho e foi escolhido”, conta.

Quando chega o mês de junho, Mateus fica na frente da casa, na rua Domingos Prestes, na Sham, brincando debaixo do boizinho como tripa para esperar a passagem das alegorias do Garantido.

“Desde os três anos ele fica na frente de casa pra recepcionar os kaçauerés. E eles também já conhecem o Matheus. Eu tentei de tudo pra mudar a cabeça dele, fiz muita chantagem emocional, ofereci viagem, brinquedo, mas ele é irredutível. Ele decidiu ser Garantido e eu tive que aceitar o meu destino, ser mãe de parreché”, diz Mayra, transbordando de amor pelo filho.

Ela também fez um depoimento onde relata que é apaixonada pelo Caprichoso, mas que não teve filhos para que eles fossem uma extensão dela, ou para que carregassem, obrigatoriamente, as suas preferências.

Amar

“Os filhos são seres únicos, com personalidade própria, gostos, sentimentos e escolhas que merecem ser respeitados. Amar também é entender que cada um tem sua própria essência e seu próprio jeito de sentir e viver as coisas.

Eu sou Caprichoso com muito orgulho, e ele é Garantido com a mesma liberdade. E está tudo bem. Porque ser mãe é, acima de tudo, acolher, respeitar e apoiar, mesmo quando as escolhas seguem caminhos diferentes dos nossos.

No fim das contas, o mais bonito de tudo é saber que, acima das cores, das torcidas e das paixões de junho, existe algo muito maior unindo a gente: o amor, o respeito, a liberdade e amor pelo Festival de Parintins”, afirmou.

E é assim que o “ser parintinense” é sempre tão enigmático. Sendo azul ou vermelho, cada pessoa sente que o boi é parte dela. Não é só torcida. É identidade. É como se a alma aprendesse, desde cedo, que naquele duelo de cores existe uma coisa maior do que a disputa, existe uma paixão vivendo dentro de cada um, em forma de espetáculo.

Texto Peta Cid
Fotos: Elinaldo Tavares e divulgação
Especial para Portal Marcos Santos

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