
Guardiões, o ‘povo de antiga’ do boi que o tempo não conseguiu cansar
Tão espetacular quanto a ópera Amazônia que explode em emoção na arena do Bumbódromo é a história de personagens da velha guarda do boi, idosos que carregam histórias, gerações e a própria alma do Festival de Parintins.
Esses caboclos e caboclas de fé, criados com peixe dos lagos e chibé de farinha seguem emocionando quem entende que o boi-bumbá vai muito além da apresentação de Caprichoso e Garantido.
Brincantes como Admilson Pereira Vieira, o famoso “Mãe Querida”, 87 anos e dona Maria Ribeiro Ferreira, 76, são a prova viva de que o amor pelo brinquedo de pano não envelhece.
Com sua palminha inseparável, Mãe Querida, tem uma história linda. Ele filho da dona Bereca Pereira, antiga moradora da rua Gomes de Castro, irmã da dona Vivência, a famosa vendedora de mingau do porto de Parintins, decantada nas toadas do Caprichoso. Mãe Querida não perde um ensaio da Marujada do Caprichoso, com a sua “palminha” e ainda faz proeza com mais de oito décadas como brincador de boi.
Ele é exímio contador de histórias, brinca no Caprichoso desde muito jovem e se tornou símbolo de dedicação, fidelidade e amor incondicional ao boi negro da estrela na testa. Sua presença entre os marujeiros é mais do que uma tradição porque atesta um reencontro com a própria história do Caprichoso.
Quando fala de sua trajetória, o rosto fica feliz, os olhos brilham, marejam, em meio ao quase permanente sorriso. “Rapaz, é minha paixão isso aqui, eu brinco desde menino, brinquei no curral do seo Luiz Gonzaga, na Cordovil. Parei uns anos pra trabalhar no porto e depois voltei com tudo”, conta.
Mãe querida também é irmão de Acinelcio Vieira, padrinho do Caprichoso. Ele diz que viu gerações nascerem e crescerem dentro do boi. “Hoje o Festival se transformou nessa festa grande, tudo muito bonito, e eu continuo firme e forte”, revela. Mãe querida também relembra muitas histórias da rivalidade, das brigas quando os bois se encontravam e não deixa de alfinetar o contrário. “Teve um ano que o “contrário” fez a maior esculhambação com a gente, saiu quebrando as árvores da rua Amazonas, minha filha pegou uma pedrada lá perto do São Benedito”, revelou, ainda com o sentimento ferrenho contra o boi rival. Apesar da rivalidade, as narrativas dele são de uma doçura e de uma verdade sem igual.
Do outro lado, no Garantido, está dona Maria Ribeiro Ferreira, brincante da Batucada, que se sente uma jovem de espírito e alma, brincado de Boi. Neste ano de 2026 dona Maria foi para a Alvorada vermelha e só chegou em casa às 9h, quando acabou a festa nas ruas. Toda essa disposição tem um motivo, ela é filha de Euclides Ribeiro da Silva, o Porrotó, brincador de boi que ficou conhecido como o dono do xeque-xeque no Boi Garanrido.
“Herdei o xeque-xeque do meu pai, a gente tem que preservar nossa história. Eu fui na passeata, cheguei umas nove horas. Nessa outra passeata do dia 12 eu acompanhei. Meu irmão não gosta que eu vá a pé, mas não gosto de ir no carro do pessoal, a gente não se sente bem, fica parado, eu gosto de animação. E lá no carro eles são todos grandes”, disse sorrindo.
Dona Maria conta que brinca no boi a vida da toda. “Iche .. eu brinco desde sempre. Na minha mocidade eu também brincava no coio do Zé Maria Valente, a gente viajava por aí com o grupo dele. Fiz muito isso”, falou a brincante que transformou sua vida em uma declaração permanente de amor ao boi da baixa do São José. Ela representa milhares de torcedores que fizeram do Garantido uma extensão da própria família. “Todos nós, eu e meus irmãos, brincamos no boi como nosso lá i”, revela.
O tempo passou para Dona Maria e Mãe Querida, os cabelos deles embranqueceram, os passos ficaram mais lentos. Mas existe algo que os anos não conseguiram tocar que é a emoção e a pavulagem de brincar do boi na terra onde o amor movimenta vidas e emoções.
Texto: Peta Cid
Colaborou Josene Araújo
Especial para Portal Marcos Santos
