
Estudo indica queda global de 81% nas populações desde 1970, com cenário ainda mais crítico na América Latina. (Foto: Reprodução)
Um novo levantamento das Nações Unidas acende um alerta sobre a rápida redução das espécies migratórias de água doce, com impactos diretos na bacia amazônica. De acordo com o Relatório Provisório sobre o Estado das Espécies Migratórias do Mundo (2026), essas populações registraram uma queda média global de 81% entre 1970 e 2020. Na América Latina e Caribe, a situação é ainda mais grave, com redução de 91%.
O documento atribui o declínio principalmente à perda e degradação dos habitats naturais, provocadas por ações humanas que alteram o fluxo dos rios. Entre os fatores mais críticos está a construção de barragens, que interrompem rotas essenciais para a migração das espécies.
Na Amazônia, as projeções são preocupantes. Caso todos os empreendimentos hidrelétricos planejados sejam implementados, o número de rios de curso livre com mais de mil quilômetros pode cair de 16 para apenas nove. Essa fragmentação compromete o ciclo de vida dos peixes, que dependem de longas migrações entre áreas de alimentação e reprodução.
Entre as espécies mais afetadas estão peixes emblemáticos da piracema, como a dourada, conhecida por percorrer grandes distâncias entre os Andes e o Atlântico; a piramutaba e a piraíba, grandes bagres migratórios; além do tambaqui, do surubim e do matrinxã, todos dependentes da conectividade dos rios para se reproduzirem.
O relatório também destaca impactos sobre outros animais aquáticos da região. Espécies como o boto-cor-de-rosa, o tucuxi — atualmente classificado como ameaçado em nível global — e a tartaruga-da-amazônia enfrentam pressão crescente devido às mudanças no regime dos rios e à presença de barreiras físicas.
Apesar de avanços na identificação de áreas prioritárias para conservação, a proteção ainda é considerada insuficiente. Hoje, apenas cerca de 36,7% das Áreas-Chave de Biodiversidade voltadas a peixes e répteis contam com algum tipo de proteção efetiva.
A ONU ressalta que a preservação da biodiversidade amazônica depende da manutenção de corredores ecológicos e da cooperação entre países para garantir a conectividade dos rios. O relatório reforça a urgência de medidas para restaurar esses ambientes e conter a exploração excessiva, sob risco de comprometer não apenas o equilíbrio ambiental, mas também a segurança alimentar de milhões de pessoas.