16/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Quebra de patentes das canetas emagrecedoras provoca polêmica

Publicado em 16 de fevereiro, 2026

Quebra de patentes das canetas emagrecedoras provoca polêmica

A possível quebra de patente dos medicamentos Mounjaro e Zepbound, utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, tornou-se o centro de debate no cenário político e econômico brasileiro. A Câmara dos Deputados aprovou, nesta semana, o pedido de urgência para votação do Projeto de Lei nº 68/2026, que visa declarar esses remédios como de interesse público, permitindo o licenciamento compulsório para a produção de versões genéricas a preços reduzidos. Para virar lei, o texto ainda precisa do aval da Câmara, do Senado e da sanção presidencial.

Proposta

De autoria dos deputados federais Antonio Brito (PSD-BA) e Mário Heringer (PDT-MG), a proposta argumenta que o custo atual dos medicamentos é proibitivo para a maioria da população e até mesmo para o Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo Heringer, os valores praticados no mercado ultrapassam o salário-mínimo nacional, dificultando o tratamento em um país onde mais da metade da população adulta necessita de assistência para a obesidade. Com a aprovação da urgência, o texto pode ser votado diretamente no plenário da Câmara, sem passar pelas comissões temáticas.

Heringer deverá solicitar a inclusão da matéria na pauta durante a próxima reunião do colégio de líderes da Casa. Ele quer que a votação ocorra logo depois do carnaval.

Medicamentos

O projeto considera de interesse público os dois medicamentos utilizados no tratamento da obesidade, de doenças crônicas associadas ao sobrepeso e do diabetes mellitus tipo 2. A declaração é requisito legal para que o governo possa autorizar a quebra de patente.

Heringer argumenta que o alto custo dos medicamentos limita o acesso da população. Atualmente, uma caneta de Mounjaro pode custar entre R$ 1.400 e R$ 3 mil, a depender da dosagem. Para o parlamentar, ampliar o acesso à tirzepatida pode ajudar a prevenir complicações graves de saúde e reduzir gastos do poder público com o tratamento de doenças associadas à obesidade.

O projeto altera a Lei 9.279/96, que trata da propriedade industrial, para permitir a quebra de patente em casos de emergência nacional ou interesse público. Nesses casos, o governo pode autorizar a produção do medicamento por outra empresa, mediante pagamento ao detentor da patente. A legislação estabelece que essa compensação corresponde a 1,5% do preço do produto.

Economia

Médico, o autor da proposta sustenta que a medida pode representar economia aos cofres públicos. Segundo ele, o custo da compensação ao laboratório seria inferior às despesas com o tratamento de complicações decorrentes da obesidade. “Isso é vantagem para o Brasil, é vantagem para quem mais precisa. A tirzepatida não vai ficar restrita ao núcleo de pessoas mais favorecidas, que podem comprar esse medicamento. Hoje é um medicamento de elite. E nós precisamos fazer saúde pública”, defendeu.

O texto ainda exclui da possibilidade de quebra de patente medicamentos à base de liraglutida, como o Saxenda, cujo prazo de proteção já expirou, e os produtos formulados com semaglutida, como o Ozempic, cujas patentes vencem neste ano.

A urgência da matéria foi aprovada pela maioria do Plenário, mas gerou reação contrária.

Críticas

O Governo Federal manifestou-se de forma contrária à proposta. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que a quebra de patentes gera insegurança jurídica e afasta investimentos em inovação e centros de pesquisa no Brasil.

“A nossa posição é contrária. Nós precisamos de inovação, de previsibilidade e de investimentos. Quando você quebra a patente, você cria insegurança jurídica e afasta investimento”, disse Alckmin, em entrevista coletiva.

“Você tem um produto, imagina, com prazo de 20 anos e aí, acabou. Ele cai a patente”, completou.

Saúde

Por outro lado, Alckmin, que também é médico, posicionou-se, contra a prorrogação dos prazos de patentes, defendendo que as regras atuais sejam respeitadas até o vencimento para garantir a previsibilidade do setor. “Nem quebrar patente, nem prorrogar prazo além do previsto. Prorrogar encarece o produto para o consumidor e afeta setores como saúde e agro. Precisamos de regras estáveis.”

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reforçou que a pasta segue as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), que no momento não recomenda o licenciamento compulsório para esses fármacos. Padilha destacou que o Brasil já utilizou esse recurso no passado, como em casos de medicamentos para HIV, mas apenas sob recomendação internacional. Assim como Alckmin, o ministro da Saúde também rejeita qualquer tentativa de estender o prazo de patentes além do previsto em lei.

“Quando o Ministério da Saúde trata desse tema, não trata de um medicamento só. A postura é técnica e segue a diretriz da OMS. O debate que o Congresso está fazendo é sobre dois medicamentos. Foi aprovada só a urgência, não quer dizer que vão discutir já o mérito. Não é garantia que vai se debater o mérito por agora”, frisou Padilha.

Mounjaro

Por meio de nota, a Eli Lilly, detentora dos direitos do Mounjaro, criticou duramente o projeto de lei e afirmou não ter sido incluída nas discussões. Em nota, a farmacêutica argumentou que o licenciamento compulsório deve ser uma medida excepcional e tecnicamente justificada. A empresa ressaltou que tal medida compromete a construção de políticas públicas sólidas e sustentáveis.

“Não é assim que se constrói uma política pública sólida e sustentável. O próprio arcabouço legal brasileiro exige que o licenciamento compulsório seja excepcional, tecnicamente justificado e iniciado pelo Poder Executivo. O Ministério da Saúde não emitiu qualquer determinação que apoie essa ação, e a Lilly, como titular da patente, nunca foi envolvida no processo”, escreveu a empresa.

Risco

Enquanto a disputa jurídica avança, a Anvisa emitiu alertas sobre o uso indevido dessas “canetas emagrecedoras”. Na avaliação da agência, o grupo de medicamentos, que inclui a tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro), exige monitoramento médico rigoroso devido ao risco de eventos adversos graves, como a pancreatite aguda, que pode ser fatal em casos necrotizantes. O Reino Unido já havia feito o alerta, reforçando a necessidade de segurança no uso dessas terapias.

A Frente Parlamentar pelo Livre Mercado (FPLM) afirmou que o projeto “é vergonhoso” e que ameaça a inovação e a liberdade de investir no Brasil. No documento, a frente afirma que a proposta fragiliza a proteção à propriedade intelectual, direito assegurado pelos arts. 5º, XXII e XXIX, da Constituição Federal, e compromete o ambiente de inovação ao sinalizar insegurança jurídica para investimentos em pesquisa e desenvolvimento farmacêutico, pois o mecanismo de patentes é essencial para viabilizar o alto risco e os custos bilionários envolvidos na criação de novos medicamentos.

Impacto

A deputada Adriana Ventura (Novo), membro da FPLM, chamou atenção para o impacto da medida, caso aprovada. “Vai trazer uma insegurança jurídica enorme para qualquer indústria no nosso país. É vergonhoso a gente quebrar patente sem os devidos estudos, impacto, dados, o que a gente tá trazendo aqui é de uma maneira açodada sem debate, quebrar uma patente que pode ter, pode ser boa a discussão”, disse ela.

“A patente tem um papel fundamental: assegurar investimento, garantir que aqueles que investem em inovação, em tecnologia, tenham exclusividade, no mundo inteiro é assim”, finalizou.

A FPLM ainda alerta que a quebra de patente deve ser medida extrema. Transformar isso em política pública afasta investimentos, espanta centros de pesquisa e empurra o Brasil para o atraso e a dependência tecnológica e que seguirá atuando com firmeza para defender a segurança jurídica, a inovação e a liberdade de empreender, pesquisar e desenvolver novas tecnologias no país.

Veja mais notícias em Geral

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.