
Aposentados Guilherme e Graça Lins dedicam há uma década um trabalho silencioso e generoso de arborização, sem apoio do poder público (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal do casal)
Há trabalhos que não aparecem em discursos oficiais, mas que, quando descobertos, revelam o tamanho silencioso da generosidade humana. Quem caminha todos os dias ao redor do CSU do Parque 10, em Manaus, talvez não imagine que parte da sombra, das folhas novas e do verde que começa a tomar corpo ali nasceu das mãos de um casal que decidiu fazer “apenas a sua parte”.
Guilherme Lins, 72 anos, e Graça Lins, 73, aposentados, não moram no Parque 10. Vivem no Conjunto ICA, no Adrianópolis. Mas há mais de dez anos caminham no CSU — e foi dessa rotina que nasceu um compromisso pessoal: plantar árvores onde não havia nenhuma.
Sem apoio do poder público, sem patrocínio, sem projeto formal. Apenas os dois, mudas frutíferas, adubo comprado com recursos próprios, pneus reutilizados e, quando necessário, a contratação de mão de obra para abrir os buracos. “Não é fácil pelos custos”, dizem. “Mas é um sacrifício que faz sentido para as futuras gerações e para o planeta.”
Hoje, contam mais de 99 árvores plantadas. Aceroleiras, goiabeiras, abacateiros — um corredor de frutíferas crescendo em espaço público, aberto ao acesso de quem passar. “É alimento gratuito para quem precisar”, explica o casal, lembrando que muitas pessoas que frequentam o CSU são de baixa renda. O gesto, simples e poderoso, busca oferecer sombra, frescor, acolhimento e dignidade.
Guilherme e Graça chamam esse trabalho de “hobby”. Mas o que fazem transcende a palavra. É um ato de cidadania ativa, de amor ao espaço comum, de resistência ao concreto e ao calor excessivo que vêm marcando Manaus. “O que sentimos é que estamos, de alguma forma, contribuindo com as próximas gerações”, dizem. “Queremos deixar qualidade de vida para quem transitar por ali. É a nossa forma de construir um mundo melhor.”
Eles lembram também que, ao contratar trabalhadores para abrir buracos ou ajudar no plantio, acabam oferecendo renda extra a pessoas que precisam — uma corrente silenciosa de solidariedade que se desdobra além das árvores.
A história do casal lembra o pequeno pássaro da fábula africana que carregava gotas de água no bico para ajudar a apagar um incêndio na floresta. “Sei que não vou apagar o fogo”, dizia o pássaro. “Mas estou fazendo a minha parte.”
Guilherme e Graça fazem a deles — e a cidade inteira colhe os frutos, literalmente.
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