13/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Indígena violentada em delegacia aguarda decisão para se reunir com família em Manaus

Publicado em 12 de setembro, 2025

Indígena violentada em delegacia aguarda decisão para se reunir com família em Manaus

Ela já possui as chaves da residência concedida pelo Governo do Estado, mas não pode se mudar enquanto a Funai não emitir o laudo necessário (Foto: Junio Matos/DPE-AM)

Mais de 30 dias após a Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM) obter decisão judicial garantindo o regime de semiliberdade para a indígena Kokama, a mulher segue isolada em um abrigo da capital, sem visitas de familiares, devido à falta de manifestação da Funai, responsável pela supervisão do cumprimento da pena.

Ela já possui as chaves da residência concedida pelo Governo do Estado, mas não pode se mudar enquanto a Funai não emitir o laudo necessário. Nesta quarta-feira (10), Kokama se reuniu na sede da DPE-AM com os defensores públicos Theo Costa e Roger Moreira para tratar da situação.

A indígena destacou a urgência de estar próxima à família, incluindo a irmã de 27 anos, em tratamento de câncer, a mãe, o padrasto e dois filhos, de 13 e quase três anos, que não vê desde sua transferência de Santo Antônio do Içá para Manaus.

A irmã, que passou por uma cirurgia delicada, recebe cuidados em um hotel na capital, enquanto parte da família segue para Manaus nesta sexta-feira (12). Como a Funai não cumpriu o prometido, parte das passagens foi paga pelo defensor Roger Moreira.

“Minha irmã passou por uma cirurgia delicada e está precisando da minha ajuda. Minha mãe e meus filhos estão chegando também”, disse Kokama.

“O pedido que eu fiz é para que eu ficasse junto ao meu núcleo familiar o quanto antes e até o momento a Justiça ainda não definiu nada. Eu preciso o quanto antes ter essa decisão para estar com a minha irmã que está doente. A Defensoria Pública já informou ao juízo da Vara de Execução Penal sobre essa situação”, afirmou.

Theo Costa ressaltou que a decisão de semiliberdade, prevista no Estatuto do Índio, está sendo dificultada pela falta de ação da Funai. “Nesse meio termo, o próprio Estado do Amazonas já cumpriu com parte do acordo concedendo uma residência para ela. Ou seja, ela já tem para onde ir e continua na casa abrigo”, disse.

Ele acrescentou que as omissões nos processos geram transtornos não apenas para Kokama, mas para toda a família. “Omissões que vêm ocorrendo desde o início e estamos vendo acontecer novamente”, afirmou.

Roger Moreira comentou que a DPE-AM tem atuado para garantir apoio emocional e logístico à indígena. “Eu percebo que ela está muito ansiosa para reencontrar a sua família, o que é natural. Ela deixou um bebê que estava amamentando no momento em que sofreu uma das violências mais terríveis e cruéis que uma mulher pode sofrer”, relatou.

O defensor também relatou que precisou pagar parte das passagens da família para assegurar que todos pudessem se reunir, oferecendo apoio socioemocional à indígena. “Quando você está perto da sua família, é uma coisa. Quando você está sozinho, você olha para o lado e não tem ninguém”, disse Moreira.

Para Kokama, o reencontro representa um recomeço. “A expectativa está muito grande para reencontrá-los. Vocês não têm noção de como está dentro do meu coração saber que eles estão mesmo no rio vindo para cá. É uma benção. Depois de tudo que aconteceu, é uma vitória estar perto da minha família, das pessoas que eu amo”, afirmou.

A mulher indígena foi submetida a condições desumanas durante sua pena em Santo Antônio do Içá, incluindo tortura, estupros e trabalhos forçados. Laudos periciais confirmaram as agressões, e denúncias foram registradas contra policiais militares e um guarda municipal.

Apesar da transferência para Manaus, a situação de vulnerabilidade se manteve, agravando problemas de saúde física e mental, incluindo transtorno de estresse pós-traumático e necessidade de cirurgia. A DPE-AM solicitou recentemente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva indulto humanitário, com pedido alternativo de comutação de pena, para garantir proteção e reintegração segura da indígena.

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