
Do rio pra canção, a arte de Jana Figarella com o linguajar caboco
Neste domingo, a Amazônia volta a se ouvir a si mesma na voz da cantora e compositora Jana Figarella. A artista, que em 2012 apresentou no Festival Nacional da Canção (FECAN) a obra “Dialeto Papa Chibé”, revive a canção em uma versão intimista gravada no meio do igapó.
A composição brinca com sons e sotaques que marcam o cotidiano amazônico, transformando o chamado caboquês em poesia. A letra traz versos de humor e identidade:
“O O é U / não é porto é purto
Não é soco é suco / Não é fogo é fugo”
“O L é R / rebelde é reberde
papel é paper”
Com uma cadência leve e divertida, Jana Figarella exalta a fala do povo ribeirinho e mostra como a oralidade regional se transforma em arte.
A canção reforça que a fala amazônica é muito mais que sotaque: é identidade cultural. E esse reconhecimento não está só na música. O Dicionário Aurélio já inclui “caboco” como variante oficial de caboclo, mostrando que o popular se tornou vernacular e ganhou espaço na norma culta.
Nascida em Manaus, criada em Belém, radicada em Recife e cidadã santarena, Jana Figarelle firmou sua carreira em terras pernambucanas, sem perder as raízes amazônicas.
Vencedora do Festival da Canção de Marabá (2006), com “Sonho de índio”, lançou dois discos autorais — “Lá Vem Janaína” e “Leve” (2010) — com participações de Isabela Moraes, Nena Queiroga e Nilson Chaves.
Segundo o jornalista e produtor Toninho Spessoto:
“Estamos diante de uma artista madura, que não tem pudores em expor suas mazelas, em abrir o coração através das canções. Jana Figarelle dá a cara a tapa sem medo de se machucar. E faz música da boa.”
A leveza aparece em canções com influência paraense, como “Nada se Compara” (homenagem a Santarém) e “Lá Vem Janaína”.
A obra é mais do que música: é manifesto cultural, que lembra ao Brasil que a Amazônia não é apenas natureza, mas também berço de língua, dialeto, culinária, dança e modos de viver.
Égua! – Expressão de espanto ou surpresa.
Paid’égua – Algo muito bom, excelente.
Pavulagem – Ostentação, vaidade.
Te mete – Enfrente, não recue.
Até o tucupi – Estar muito cheio, saturado.
Caboco – Variante de caboclo, hoje registrada no Aurélio.
Maninha / Mermão – Tratamento carinhoso.
Bem ali ó – Pertinho, logo adiante.
Tu queres / tu vás – Conjugação preservada no falar amazônico.
Borogodó – Encanto, charme.
Espanto é égua – Grande surpresa.
Tacacá – Sopa típica feita com tucupi, goma e camarão.
Farinha d’água – Base da alimentação caboca.
Tambaqui na brasa – Peixe assado, símbolo da gastronomia local.
Bubuia – Flutuar sem rumo.
Matinta – Figura mítica do folclore amazônico.
Pirarucu – Peixe amazônico e riqueza do manejo comunitário.
VEJA, ABAIXO, O VÍDEO COM “DIALETO PAPA CHIBÉ” INTERPRETADA NA CANOA POR JANA FIGARELLA: