
Fenômeno temporário atribuído a variações naturais nas correntes oceânicas não indica recuperação do gelo. (Foto: Divulgação)
Pesquisadores observaram uma desaceleração no derretimento do gelo marinho no Ártico desde 2005, uma surpresa para a comunidade científica, considerando que as emissões de carbono continuam a aumentar devido à queima de combustíveis fósseis. A tendência, no entanto, é temporária e não indica recuperação do gelo, que já perdeu metade de sua extensão mínima anual em setembro desde 1979, quando começaram as medições por satélite.
Segundo os cientistas, a desaceleração se deve provavelmente a flutuações multidecadais nas correntes dos oceanos Atlântico e Pacífico, que limitam a quantidade de água aquecida que chega ao Ártico. Ainda assim, o derretimento deve acelerar novamente nos próximos cinco a dez anos, em uma taxa possivelmente maior que a observada no longo prazo.
“O fato de haver uma desaceleração é surpreendente, mas temporário. A variabilidade natural está compensando momentaneamente a perda de gelo, mas isso não muda o quadro geral do aquecimento global”, afirmou Mark England, da Universidade da Califórnia, em Irvine.
A investigação, publicada na revista Geophysical Research Letters, analisou dois conjuntos de dados sobre o gelo marinho do Ártico entre 1979 e 2024, considerando todos os meses do ano. Os resultados indicam que a desaceleração se repete em diferentes cenários climáticos simulados, mas que a perda de gelo retoma posteriormente.
A pesquisa também mostrou que, mesmo que a área de gelo marinho não diminua, o volume do gelo continua a reduzir. Andrew Shepherd, da Universidade de Northumbria, destacou que desde 2010 a espessura média do gelo em outubro tem caído 0,6 cm por ano.
Estudos históricos apontam fenômenos similares, como a “pausa” de cerca de uma década após o grande El Niño de 1998, em que a temperatura global manteve-se relativamente estável antes de retomar o aumento acelerado.
Os cientistas reforçam que as alterações climáticas permanecem inequívocas e impulsionadas pelo homem. “A ciência fundamental e a urgência da ação climática continuam inalteradas. Esta desaceleração não significa que a crise climática tenha sido resolvida”, afirmou Shepherd.
Julienne Stroeve, da University College London, acrescentou que cada tonelada de CO₂ emitida contribui para a perda de aproximadamente 2,5 metros quadrados de gelo em setembro, evidenciando que a ação humana continua sendo determinante para o futuro do Ártico.
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