12/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Milei anuncia compra de 24 caças da Dinamarca em meio a crise econômica na Argentina

Publicado em 31 de março, 2024

Milei anuncia compra de 24 caças da Dinamarca em meio a crise econômica na Argentina

Acerto que promete polêmica pode encerrar novela de 30 anos; Copenhague vai doar 19 aviões para a Ucrânia (Foto: Reprodução)

Após 30 anos de tentativas frustradas, a Argentina parece estar próxima de adquirir um novo avião de combate. Novo em termos: o país assinou um memorando para comprar da Dinamarca 24 caças americanos F-16 usados.

Se concretizada, contudo, a compra de US$ 664 milhões (R$ 3,3 bilhões hoje) será um salto na qualidade da defesa do vizinho brasileiro e terá implicações estratégicas regionais.

Buenos Aires não conta com aviões de caça desde que aposentou o último Mirage francês que operava, em 2015. Hoje, sua frota com uma capacidade mínima de combate ar-ar se resume a 12 aviões de ataque americanos A-4 Fightinghawks, dos quais talvez apenas 5 estejam operacionais.

Esses foram os últimos aviões novos incorporados pela Força Aérea Argentina, comprados em 1994 e entregues até o ano 2000. Há ainda 11 modelos de primeira geração do Tucano da Embraer, também em uso limitado.

Basta acompanhar a história política e econômica argentina nas últimas décadas para compreender as razões da falta de modernização. Em 2023, o orçamento de defesa de Buenos Aires era equivalente a cerca de 1/10 do brasileiro, respondendo por 5,4% do total da América Latina e do Caribe, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (Londres). O Brasil lidera com 44,4% da fatia regional.

Como Milei justificará tal aquisição politicamente, em meio ao arrocho duríssimo que aplicou ao país cortando programas sociais, aposentadorias e salários de servidores, é outra questão a ser vista.

Mas não é a única. Em 1982, a ditadura agônica de Buenos Aires invadiu as britânicas ilhas Falkland, chamadas por aqui de Malvinas. Após Londres derrotar e expulsar os argentinos, que de quebra viram os militares deixarem o poder, o Reino Unido determinou um embargo militar aos rivais que vale até hoje.

Isso travou uma série de tentativas de compras por parte da Argentina, a mais recente em 2020, quando o país quase fechou negócio para adquirir os populares caças leves FA-50 da Coreia do Sul. Mas o aparelho vem com cinco componentes britânicos, um deles o central assento ejetor da mais popular fabricante do produto no mundo, a Martin-Baker.

Ideias alternativas surgiram, a mais palpável na forma da venda, pela China, de caças JF-17, um lote de 20 aviões que seria produzido no Paquistão, que já opera o modelo. Negócio exótico para os padrões sul-americanos, ele acabou derrubado no ano passado devido às dificuldades orçamentárias e o mau humor dos Estados Unidos.

O Comando Sul americano já havia expressado preocupação no ano passado com a base Espacio Lejano, uma estação de rádio que a China opera na Patagônia argentina desde 2014 devido a um acordo secreto com o governo esquerdista da então presidente Cristina Kirchner.

Na região, a Venezuela, pária na visão de Washington, é a principal cliente de material bélico chinês e russo. Os americanos deixaram claro que caças seriam um passo além, mas o que matou o negócio foi a quebra do país.

Os indianos até tentaram oferecer um assento ejetor russo K-36 no lugar dos Martin-Baker usados pelo seu caça leve Tejas, que até o fim de 2023 parecia estar no páreo na Argentina, mas nada avançou.

A eleição de Javier Milei, um ultraliberal adorado pelos EUA, em oposição ao antiamericano antecessor Alberto Fernandéz, garantiu a mudança de jogo em favor do F-16. O Departamento de Estado americano celebrou o acordo com a Dinamarca, deixando claro que daria todas as permissões de reexportação do seu produto.

Já em outubro passado, um mês antes da vitória de Milei, foi dada uma permissão inicial para a transferência. Em nota, o governo dos EUA disse que “isso reafirma nossos laços próximos de defesa e apoio firme aos esforços argentinos de modernização”.

Os F-16 dinamarqueses são antigos, fazendo parte de um lote de 77 entregues de 1980 a 1997. Mas são melhores do que nada, evidentemente: 19 deles estão sendo preparados para serem doados à Ucrânia e usados pelo país na guerra contra a Rússia.

Copenhague está se desfazendo de sua frota de 44 aviões, 34 deles monopostos e 10, de dois lugares, ideais para treinamento, para incorporar 27 novos F-35. Esses F-16 são aparelhos com graus variáveis de modernização, sendo difícil definir o que os argentinos levarão se a compra for efetivada.

Regionalmente, a Venezuela ainda opera 18 desses modelos iniciais do caça americano (F-16A/B), enquanto o Chile tem uma frota de 34 aviões mais antigos (A/B) e 10 mais recentes (C/D). O caça é o mais popular do mundo, tendo completado 50 anos de seu primeiro voo em janeiro.

Em relação ao Reino Unido, a compra da Dinamarca não deve apresentar problemas. Aquelas aeronaves mais antigas utilizam um assento ejetor americano, o Aces-2, enquanto só versões mais novas usam o britânico.

Politicamente, é de se presumir que os EUA combinaram o jogo com Londres que, de todo modo, não deve se sentir muito ameaçada. Nas Falklands, os britânicos mantém ao menos quatro caças Eurofighter Typhoon, bem mais avançados do que os F-16 dinamarqueses.

Os aviões de combate mais modernos do continente são os Saab Gripen suecos comprados pelo Brasil, dos quais 6 de 36 de uma primeira leva estão em ação. Os russos Sukhoi-30 da Venezuela são os mais poderosos no papel, mas têm aviônica envelhecida e sua capacidade operacional é duvidosa.

Veja mais notícias em Geral

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.