01/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Em Dubai, Brasil defende que cultura se integre globalmente às discussões climáticas

Publicado em 08 de dezembro, 2023

Em Dubai, Brasil defende que cultura se integre globalmente às discussões climáticas

A intensa agenda de compromissos do governo brasileiro na Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas – COP 28, realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, prosseguiu nesta sexta-feira, 8 de dezembro, com a ministra da Cultura, Margareth Menezes, representando o país no lançamento do Grupo de Amigos da Ação Climática Baseada na Cultura (GFCBCA, na sigla em inglês).

» Fotos em alta resolução (Flickr)

“Um ativo tão forte quanto a cultura não pode ficar de fora do enfrentamento à mudança climática no planeta”, afirmou a ministra brasileira, em seu discurso durante o evento. “Comunidades tradicionais, culturas urbanas, patrimônios da humanidade e nacionais estão em risco com a mudança do clima. Esta ameaça pode fazer com que não possamos transmitir às novas gerações nossas práticas socioculturais, o nosso legado de memórias e de expressões culturais, o que é também um ataque ao direito à cultura de povos e comunidades e um limitante de nossa diversidade cultural”, prosseguiu Margareth Menezes.

Nações

Para a ministra, é preciso incluir a cultura inclusive nas questões financeiras discutidas na Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas. “Temos que desenvolver políticas específicas para este tema. É fundamental que o Fundo de Perdas e Danos contemple também a mitigação dos impactos nos patrimônios atingidos pela ação climática. Por outro lado, a cultura não é apenas vítima, mas também uma força que pode e deve ser mobilizada para que a mudança que precisamos seja efetivada em tempo para alcançarmos as metas do Acordo de Paris”, ressaltou a representante do Brasil.

Copresidido pelo Brasil e pelos Emirados Árabes Unidos, o grupo, formado por Estados Membros da ONU, realizou sua primeira reunião de Alto Nível do Diálogo Ministerial sobre Ação Climática baseada na Cultura. O encontro contou com a presença do ministro da Cultura e Juventude dos Emirados Árabes, Xeique Salem bin Khalid Al Qassimi, e de ministros da Cultura de diversos países, além de representantes da sociedade civil.

O objetivo da coalizão internacional é gerar impulso político para o reconhecimento da cultura como uma força poderosa no combate às mudanças climáticas. O GFCBCA pretende desenvolver intervenções, soluções e ações multilaterais que demonstrem os benefícios da integração da cultura na ação climática, ao mesmo tempo em que visa oferecer um espaço para que todas as nações e comunidades, independentemente de sua origem ou localização, compartilhem conhecimento, experiência e melhores práticas.

Cultura

Durante seu discurso, Margareth Menezes listou três pontos principais ao do papel que a cultura pode ter como parte da solução no enfrentamento às mudanças climáticas.

  • “As histórias que contamos através do cinema, da literatura, das artes têm o poder de alcançar muitas pessoas. E o campo da arte é por onde grande parte de nossas histórias são contadas. A cultura tem o potencial de elevar a consciência sobre o momento crítico que estamos vivendo e ajudar a promover a mudança de comportamento, na escala necessária, que precisamos urgentemente”.

  • “A cultura tem o poder não apenas de conscientizar sobre o presente, mas também de ajudar a imaginar futuros possíveis. Modos de vida em que as nossas necessidades por uma vida melhor não aconteçam ao custo das vidas de gerações futuras”.

  • “Podemos aproveitar os conhecimentos tradicionais e as tecnologias sociais existentes para inspirar as soluções que precisamos. Em 2023, o Brasil teve a honra de ganhar o Leão de Ouro de Melhor Participação Nacional na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2023 com um pavilhão que mostrava a força dos conhecimentos tradicionais e que exaltava as tradições, saberes e tecnologias da arquitetura de nossas populações indígenas e afro-brasileiras”.

Em um dos pontos altos de sua fala, a ministra da Cultura frisou que no processo de produção de um balanço do Acordo de Paris, em curso na COP 28, o momento é de exaltar o multilateralismo e promover ações concretas.

“Reforço aqui o que nosso presidente Lula tem dito, que precisamos nos distanciar dos muitos acordos climáticos que não foram cumpridos; das metas de redução de emissão de carbono negligenciadas e da promessa de auxílio financeiro feita aos países pobres. Precisamos de atitudes concretas. É preciso resgatar a crença no multilateralismo. Precisamos pactuar e protagonizar ações concretas para além de nossas fronteiras em uma cultura de colaboração e fraternidade”, afirmou a ministra.

O encontro contou com a presença do ministro da Cultura e Juventude dos Emirados Árabes, Xeique Salem bin Khalid Al Qassimi, e de ministros da Cultura de diversos países, além de representantes da sociedade civil. Foto: Estevam / Audiovisual / PR

Paradigma

Segundo destacou a COP 28, o Grupo de Amigos para a Ação Climática Baseada na Cultura visa a promover uma mudança de paradigma na forma como as alterações climáticas são entendidas.

As discussões não devem se limitar a um desafio ambiental, financeiro e científico. Elas também devem envolver aspectos culturais. Portanto, o GFCBCA tem como objetivo consolidar o consenso internacional sobre a necessidade de colocar a cultura, das artes ao patrimônio, no centro da ação climática, de modo a definir valores-chave e melhores práticas para a ação climática baseada na cultura.

Além disso, é preciso estimular um maior intercâmbio internacional e um amplo acesso a sistemas de conhecimento de povos originários, estabelecer estratégias de medição de impacto e partilhar opiniões sobre como o processo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) pode ser acelerado para satisfazer a necessidade urgente de uma maior adaptação global.

Reunião

Além do lançamento do Grupo de Amigos da Ação Climática Baseada na Cultura, a agenda da ministra Margareth Menezes nesta sexta-feira na COP 28 incluiu uma reunião com agentes da sociedade civil brasileira, representando o Instituto Clima e Sociedade (ICS), a Coordenação dos Povos Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a União de Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab).

“A cultura tem uma importância estratégica, porque na cultura nós temos as memórias das relações mais saudáveis com a natureza para o ser humano. E no Brasil, especialmente, onde temos um grande legado de natureza e nossas riquezas naturais são fantásticas, nós precisamos nesse momento auxiliar o mundo a fazer a retomada de uma convivência mais respeitosa com a natureza”, analisou Margareth Menezes.

“O Brasil está se colocando como um líder nessa questão, de fazer uma reflexão, e convidando a todos para a COP ser na Amazônia, para que as pessoas entendam que ambiente é esse. E a cultura é uma grande ferramenta para isso. Enquanto a gente não conseguir mobilizar a sociedade e a consciência humana para entender em que momento nós estamos vai ser muito difícil fazer essa transição. Com a cultura fica mais fácil”, concluiu a ministra.

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