24/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Investigação é ampliada com dúvidas sobre segurança do submarino Titan

Publicado em 25 de junho, 2023

Investigação é ampliada com dúvidas sobre segurança do submarino Titan

A investigação internacional sobre a implosão fatal do submersível Titan foi ampliada no sábado (24), com a Real Polícia Montada do Canadá (RCMP, em inglês) dizendo que está investigando se “as leis criminais, federais ou provinciais podem ter sido violadas”.

O anúncio ocorre em meio a crescentes dúvidas sobre o design do Titan, incluindo o relato de um especialista em submersíveis que disse ter alertado o CEO da embarcação sobre questões de segurança após uma viagem anos atrás.

Quando Karl Stanley estava a bordo do Titan para uma excursão submarina na costa das Bahamas em abril de 2019, ele sentiu que havia algo errado com o navio quando ruídos altos foram ouvidos.

No dia seguinte à sua viagem, Stanley enviou um e-mail para Stockton Rush, CEO da operadora da embarcação, OceanGate Expeditions, soando o alarme sobre suspeitas de defeitos.

“O que ouvimos, na minha opinião… soou como uma falha/defeito em uma área sendo afetada pelas tremendas pressões e sendo esmagada/danificada”, escreveu Stanley no e-mail.

“Pela intensidade dos sons, o fato de nunca terem parado totalmente em profundidade e o fato de haver sons a cerca de 300 pés que indicavam um relaxamento da energia armazenada / indicaria que há uma área do casco que está quebrando / ficando esponjosa”, continuou Stanley.

Implosão

O Titan implodiu no domingo (18) a caminho do icônico naufrágio do Titanic, matando todos os cinco passageiros a bordo, disseram as autoridades. Especialistas militares encontraram detritos consistentes com a perda da câmara de pressão da pequena embarcação, disse o contra-almirante da Guarda Costeira dos Estados Unidos, John Mauger.

Os mortos foram Rush; empresário britânico Hamish Harding; o mergulhador francês Paul-Henri Nargeolet; e o empresário nascido no Paquistão Shahzada Dawood e seu filho, Suleman, que eram cidadãos britânicos.

A implosão está atualmente sob investigação do Conselho de Segurança de Transporte do Canadá e da Guarda Costeira dos EUA.

A RCMP iniciou um “exame das circunstâncias que levaram às mortes” para responder à “questão de se uma investigação completa ou não … é justificada”, disse o superintendente da RCMP, Kent Osmond, à imprensano sábado.

“Essa investigação prosseguirá apenas se nosso exame das circunstâncias indicar que as leis criminais federais ou provinciais podem ter sido violadas”, disse Osmond. “Não há suspeita de atividade criminosa per se, mas a RCMP está tomando as medidas iniciais para avaliar se seguiremos ou não por esse caminho.”

Osmond falou à imprensa depois que os investigadores da RCMP encontraram o Polar Prince, o navio que lançou o malfadado submersível, quando ele chegou a St. John’s, Newfoundland, na manhã de sábado. Eles conduziram algumas entrevistas com os que estavam no navio.

“Nosso objetivo é examinar as perdas e determinar se algo contribuiu para suas mortes que possa nos levar a um indício criminoso”, disse ele.

Osmond disse que a complexa investigação “é uma circunstância única”, devido “às questões jurisdicionais”, a “incerteza prolongada” do esforço de busca e resgate e “às especificidades e os conhecimentos que entraram no navio, na viagem”.

“Tudo isso precisa ser entendido por nós”, disse ele.

Transporte

A missão do conselho de transporte é “promover a segurança do transporte”, não atribuir culpa, disse Kathy Fox, presidente do Conselho de Segurança de Transporte do Canadá, no sábado em uma coletiva de imprensa anterior.

“Nosso mandato é descobrir o que aconteceu e por que e descobrir o que precisa mudar para reduzir a chance ou o risco de tais ocorrências no futuro”, disse Fox.

Fox disse que os investigadores no sábado também embarcaram no Polar Prince. Eles examinaram a embarcação, coletaram informações do gravador de dados de viagem e de outros sistemas e iniciaram entrevistas com as pessoas a bordo, incluindo familiares daqueles que morreram no submersível.

“Acho que qualquer um pode imaginar que é difícil, as circunstâncias pelas quais eles passaram nos últimos dias”, disse Fox. “E temos que entender que isso afetará particularmente as famílias que perderam entes queridos.”

O cofundador da OceanGate, Guillermo Sohnlein, pediu às pessoas que não apressem o julgamento sobre a implosão.

“Existem equipes no local que ainda coletarão dados nos próximos dias, semanas, talvez meses, e levará muito tempo até sabermos exatamente o que aconteceu lá embaixo”, disse Sohnlein na sexta-feira (23). “Portanto, eu encorajaria a adiar as especulações até que tenhamos mais dados para prosseguir.”

Em seu e-mail de 2019, Stanley perguntou a Rush se ele consideraria levar as pessoas para ver o Titanic sem saber as origens dos barulhos. A OceanGate ofereceu passeios no Titan para passageiros que desejavam a oportunidade de ver os famosos destroços.

“Um exercício de pensamento útil aqui seria imaginar a remoção das variáveis dos investidores, os cientistas ansiosos da missão, sua equipe com fome de sucesso, os comunicados à imprensa que já anunciam a programação de mergulho deste verão”, escreveu Stanley.

“Imagine que este projeto foi autofinanciado e em seu próprio cronograma. Você consideraria levar dezenas de outras pessoas ao Titanic antes de realmente saber a origem desses sons?, Stanley perguntou a Rush no e-mail.

Quando questionado sobre o e-mail de Stanley, um porta-voz da OceanGate comentou que eles não podiam fornecer nenhuma informação adicional no momento.

Material escolhido

Stanley disse, na sexta-feira, que embora Rush não tenha respondido a ele por escrito, Rush provavelmente reconstruiu a embarcação usando o mesmo material que a Boeing usa para construir seus aviões.

“Ele cancelou os mergulhos daquele ano, pegou aquela fibra de carbono e a cortou, encontrou os defeitos e fez uma nova ao custo, acredito, de mais de US$ 1 milhão”, disse Stanley.

A Boeing disse em comunicado na quarta-feira (21) que não era parceira na construção do Titan, apesar de um comunicado de imprensa de 2021 da OceanGate listar a empresa aeroespacial como uma “parceira” que forneceu “suporte de design e engenharia”.

A OceanGate disse que não poderia fornecer mais informações sobre seu relacionamento com a Boeing. 

Questionado se estava confiante na capacidade do submersível de fazer a jornada até o naufrágio histórico, Stanley disse acreditar que Rush tomou medidas para corrigir o problema após o e-mail.

“Ele nunca entrou em detalhes comigo sobre exatamente quantos testes de modelo ele havia feito, exatamente onde eles falharam. Mas minha impressão foi de que ele havia feito diligência suficiente para que vidas não corressem risco”, disse Stanley.

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