30/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Lula mantém silêncio sobre invasões do MST em fazendas da Bahia

Publicado em 04 de março, 2023

Lula mantém silêncio sobre invasões do MST em fazendas da Bahia

As invasões deflagradas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) aumentam o desgaste do governo federal com o agronegócio, setor que era alinhado à gestão Bolsonaro. Mesmo assim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém silêncio sobre as ocupações. O chefe do Executivo esteve ontem na cidade de Rondonópolis, em Mato Grosso — um dos estados de maior produção agrícola do país —, e em nenhum momento abordou o assunto.

Desde a última segunda-feira, integrantes do MST invadiram cinco fazendas, três delas da empresa Suzano Papel e Celulose, no sul e no norte da Bahia, onde é cultivado eucalipto. Ontem, uma delas, que não pertence à companhia, foi desocupada.

Em reação, a bancada ruralista no Congresso divulgou uma nota, na sexta-feira (3/3), classificando os atos como resultado de uma “conivência histórica com a impunidade”. “É o caminhar, lado a lado, por parte de alguns, com a depreciação da ordem e da lei”, sustenta a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). “De maneira equivocada, instalou-se no país uma ideia de que há qualquer tipo de heroísmo anexo à ilicitude, ou ainda, que se pode enxergar direitos na barbárie. Independente da violação, se procura, tão ineficaz quanto a pior desculpa, uma motivação para o cometimento de crimes.”

A FPA é formada por deputados e senadores que defendem os interesses do agronegócio, incluindo parlamentares que são donos de terras. A bancada é uma das maiores do Congresso, junto com a Frente Parlamentar Evangélica e a Frente Parlamentar da Segurança Pública.

Os parlamentares também enfatizaram serem contra “qualquer tipo de invasão” e que defendem o direito à propriedade privada. “Necessário acrescentar que a invasão, seja qual for a gravidade e as consequências, traz prejuízo permanente aos produtores rurais, que além de utilizarem a terra como moradia fazem dela a atividade laboral diária. Sem contar, obviamente, os danos econômicos ao setor produtivo e à nação”, argumentam.

A nota não cita o presidente Lula ou ações do governo federal, mas é considerada uma crítica velada. Durante a campanha eleitoral, o chefe do Executivo citou constantemente o MST e ressaltou que o movimento não ocuparia terras produtivas.

Entidades que representam grandes produtores também se manifestaram condenando as ocupações. Entre elas, estão a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a Sociedade Rural Brasileira (SRB) e a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Elas cobram ações do governo federal para desocupar as propriedades.

O MST argumenta que as propriedades ocupadas na Bahia não têm função social e que o plantio intensivo do eucalipto prejudica o meio ambiente e as terras de famílias camponesas. A organização também frisa que a Suzano desrespeitou um acordo feito com o MST há 10 anos, segundo o qual áreas das fazendas seriam destinadas ao assentamento de 450 famílias.

A Suzano, por sua vez, ressalta que não houve quebra do acordo e que a ocupação é ilegal. A empresa afirma que as terras não foram entregues ainda porque isso depende de processos do Incra, o que não ocorreu.

Ontem, representantes do MST reuniram-se com o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Cesar Fernando Aldrighi, em Brasília. Ele foi nomeado na segunda-feira, e já ocupava o cargo. O movimento criticava a demora de Lula em definir a chefia do órgão e agora cobra que as superintendências estaduais também sejam anunciadas.

“Na pauta, questões emergenciais, como a nomeação dos órgãos regionais, a mediação de conflitos e o assentamento das famílias. Além disso, temas estratégicos, como um plano de metas para assentamento e um plano nacional de alimentação, foram abordados”, diz o MST a respeito do encontro no Incra.

Em Rondonópolis, onde participou da cerimônia de entrega de 1.400 residências do Minha Casa Minha Vida, Lula afirmou que a fome no Brasil é inexplicável, uma vez que o país é um dos maiores produtores mundiais de alimento. “Foi aqui neste estado, que é um dos maiores criadores de gado e maior produtor de grãos deste país, que apareceu uma mulher na porta de um açougue recebendo um osso para fazer uma sopa dentro de casa. Não é explicável no país que é o terceiro produtor de alimento do planeta, maior produtor de proteína do mundo, a gente ter 33 milhões de pessoas passando fome”, criticou.

O petista disse que houve redução no preço da carne. “Não sei se vocês perceberam que o preço da carne já caiu 15%, e é preciso cair mais. Vai levar um tempo para a gente consertar este país. Não é uma coisa tão fácil.”

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