06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Alter do Chão, do chef que assinou jantar de Lula e Janja ao regional exótico

Publicado em 18 de janeiro, 2023

Por * Roseane Mota, do Canal Três

Alter do Chão

Alter do Chão, melhor praia do mundo tem comida regional exótica e internacional de alto padrão. Foto: Roseane Mota

Uma viagem de férias não tem o menor sentido sem uma boa experiência gastronômica. Além de traduzir a cultura do lugar, a comida mexe com a emoção da gente.

Na vila de Alter do Chão, distrito de Santarém, Pará (Brasil), a 38 quilômetros da sede municipal, via rodoviária, essa combinação é perfeita. Para um pequeno lugarejo no interior, a quantidade e qualidade dos restaurantes surpreende.

Alter do Chão

Culinária exótica é criativa na praia do Tapajós. Foto: Divulgação

Conhecida como Caribe da Amazônia, Alter do Chão ganhou ainda mais projeção ao ser apontada pelo jornal inglês The Guardian como a mais bela praia de água doce do mundo e tem muito a oferecer em termos gastronômicos. As opções vão do regional exótico à tradicional cozinha paraense, com toque gourmet à base de temperos da terra, como jambu, tucupi e castanha do Pará, mas também tem cozinha internacional e um bom churrasco na estrada.

 

Vitória Régia no cardápio

Começo pelo regional, que me chamou atenção: um passeio de lancha, iniciando nas águas verdes do rio Tapajós até o canal do Jari, um braço do rio Amazonas, onde o visitante pode compartilhar o modo de vida ribeirinho e degustar o banquete de iguarias à base da Vitória Régia do jardim aquático da dona Dulce.

(O Jari é o famoso rio onde Daniel Keith Ludwig, bilionário norte-americano, implantou o Projeto Jari, em 1977, para suprir o mundo de celulose e arroz, desmatando 4 mil hectares de terra. Fracasso total).

A exótica planta, símbolo da Amazônia, que ela mesma cultiva em um lago em frente à sua casa no estilo palafita, compõe um cardápio surpreendente, até para quem não é vegano ou adepto das Pancs (Plantas Alimentícias Não Convencionais).

Tudo da planta é aproveitado: caules, folhas e flores viram quiche, tempurá, rabanada, palmito, salada. Até a semente é usada. Inteira faz-se a pipoca e triturada, um surpreendente brownie sem chocolate. Das pétalas das flores, ainda se faz doce e delicada geleia.

Para visitar o Jardim de Vitória Régia da dona Dulce, com degustação, paga-se uma taxa de R$ 30. O mesmo valor para conhecer a casa da vizinha, dona Rosângela, parada obrigatória para tomar um cafezinho, caminhar em trilha onde pode-se encontrar animais silvestres, como macacos, corujas, preguiças e árvores centenárias, e comprar souvenires mais baratos que os vendidos na vila.

O menu degustação de dona Dulce é só um lanchinho, após o percurso de cerca de uma hora, entre Alter do Chão e a comunidade, até a próxima parada, agora, de volta ao Tapajós, para conhecer a Casa do Saulo.

 

Chef de Lula e Janja

O restaurante, fincado no alto de uma ribanceira, ganhou ainda mais projeção, depois que o chef Saulo Jennings assinou um dos pratos do cardápio do jantar da posse do presidente Lula. O bolinho de piracuí, queridinho dos turistas nas praias de Alter do Chão e servido de entrada para Lula e Janja, é feito da farinha do acari-bodó, um dos peixes mais apreciados pelos paraenses da região.

O toque pessoal desse prato é a geleia de cupuaçu apimentada, perfeita combinação com uma Cerpinha gelada, a cerveja paraense tipo exportação.

Como prato principal, a dica é o carro-chefe do lugar: filé de pirarucu grelhado, que também pode ser substituído pelo tucunaré, com molho de castanha do Pará, banana da terra e camarão rosa. É digno dos deuses.

Ah, e tem opção vegana (bem gostosa, viu?): arroz com tucupi e jambu, homus de feijão regional, vinagrete, também com feijão regional, farofinha e banana assada.

O preço dos pratos no restaurante Casa do Saulo é bem variado, mas o almoço padrão, com bebida moderada (cerveja, no caso) e a entradinha, sai, em média, R$ 300 para um casal.

A vista para o rio, do restaurante, que também pode ser acessado por terra, é fenomenal. Para relaxar, o local tem piscina e espreguiçadeiras, mas bom mesmo é descer até a praia de areia branca e se banhar na água morninha do Tapajós. Depois, seguir o roteiro para apreciar o pôr do sol numa praia deserta e se preparar para a Piracaia.

 

Piracaia

A palavra Piracaia, que no tupi guarani significa peixe frito ou peixe queimado, remete a um jantar à base de pescados e frutas regionais, ao redor de uma fogueira à beira praia, que conecta o visitante ainda mais com a cultura e os costumes locais.

Os peixes fresquinhos são variados e assados na brasa, para serem servidos à moda dos nativos, com pimenta, molho de tucupi, farinha d’água e banana assada. Para beber, caipirinha e água mineral.

O jantar é uma celebração, um ritual indígena, acompanhado de contação de história e ao ritmo regional do carimbó e curimbó. Pode durar de 19h até a meia noite.

Para ir à Piracaia é preciso agendar com o Naldo Kumaruara.  Indígena da Aldeia Muruari, que fica no Baixo Tapajós, seo Naldo faz questão de oferecer uma Piracaia raiz, condizente com os costumes do seu povo. Ele também faz os passeios de lancha. O contato é pelo celular (93) 99192 2462.

O turista tem opção de fazer só a Piracaia, ao custo de R$ 300 por pessoa. E pode também incluir o passeio completo de lancha até o canal do Jari, seguido do almoço na Casa do Saulo ou em um dos restaurantes de praia em Ponta de Pedras, segunda praia mais visitada na região, depois da Ilha do Amor. Depois, segue para as praias do Jutubinha e do Jacaré e para ver o pôr do sol na ponta do Cururu. Somente o passeio (sem Piracaia, sem restaurante, degustação ou trilha) custa R$ 180 por pessoa, em grupos de oito a dez indivíduos.

 

Hospedagem

Óbvio que essa é uma experiência pessoal e cada um pode construir seu roteiro gastronômico e seus passeios preferidos. Os hotéis locais, que também são muito bons, podem dar dicas valorosas. São mais de duas dezenas de bons restaurantes e posso citar outros que visitei na minha estada na vila, também muito interessantes.

O Ty Comedoria e Bar, com vistas para a Ilha do Amor, é um exemplo. Além da boa comida, o ambiente com decoração moderna é muito agradável, assim como a música ao vivo da melhor qualidade. No cardápio tem um excêntrico Nhoque de Banana da Terra, mas o prato mais recomendado é o Pirarucu na redução de tucupi, com banana da terra e jambu.

Para quem prefere a cozinha internacional, o Do Italiano, bem na praça da igreja de Nossa Senhora da Saúde, serve massas, pizzas e petiscos. Vale a pena também ir tomar açaí, tacacá ou saborear pratos típicos regionais no Veneta Açaí, ou nas barracas da roda de Carimbó, que acontece todas às quintas-feiras no centro da vila, onde se pode dançar e comer a maniçoba, feita da folha da mandioca.

Na praia do Amor, um lombo de areia branquinha, cercado de água cristalina, bem em frente a Alter do Chão, o tambaqui assado na brasa é o mais apreciado, mas eu fui de moqueca de pirarucu e me dei bem.

E se, de repente, der vontade de comer churrasco, inaugurou recentemente, na estrada de Alter do Chão, uma filial da churrascaria Dois Irmãos, tradicional em Santarém, padrão cinco estrelas.

O ideal para explorar Alter do Chão é uma viagem de cinco dias. Período suficiente para curtir as opções de passeios e aproveitar a gastronomia da terra do Çairé. As praias de rio, que costumam estar no auge entre julho e dezembro, nos últimos anos têm se prolongado até o fim de janeiro, sendo uma ótima opção de férias para toda a família.

 

*Roseane Mota é jornalista.

Alter do Chão

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