08/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Em São Gabriel da Cachoeira, primeira turma yanomami com 42 professores indígenas é graduada pela Ufam

Publicado em 23 de agosto, 2022

Foto: Divulgação

Em São Gabriel da Cachoeira, 42 indígenas, da etnia yanomami, receberam o diploma de graduação do curso em Licenciatura Indígena: Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), numa cerimônia realizada no próprio território, aos pés do Pico da Neblina. A solenidade aconteceu no último sábado (21).

A partir de agora, os yanomami fazem parte do grupo de etnias que acessam a educação de nível superior de qualidade e diferenciada, ofertada pela Ufam. Além deles, os baniwa, os tikuna e os de língua yêgatu também concluíram o curso nos meses de julho e agosto e tiveram suas cerimônias de outorga de grau igualmente em terra indígena.

Atualmente, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população yanomami soma 38 mil pessoas, organizadas em um número superior a 200 aldeias dentro de uma área de 9.6 milhões de hectares que avança pela Amazônia Legal.

A solenidade foi realizada no ginásio Padre Antônio Góes, comandada pelo reitor, professor Sylvio Puga, que pela primeira vez esteve em Maturacá. Também participaram a diretora do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), professora Iraildes Caldas Torres; o coordenador da Licenciatura Indígena, Nelcioney Araújo, e o diretor do Departamento de Articulação e Planejamento de Extensão (Darpex), professor Paulo Negreiros, representando o pró-reitor de Extensão, professor Almir Menezes. O comandante do 5o Pelotão Especial de Fronteira do Exército Brasileiro, tenente Celino também ocupou assento à mesa junto com o padre salesiano Raimundo Marcelo Cardoso Maciel.

A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), parceira da Universidade na execução do projeto, foi representado por Dário Cassimiro Baniwa que se pronunciou em nome do presidente, Marivelton Barroso.
Outras lideranças indígenas à mesa foram José Pereira Góes, da Associação dos Rios Cauaburis e Afluentes (AYRCA), a presidente da Associação das Mulheres Yanomami, Erika Vilela e os caciques Miguel Figueiredo e Antônio Lopes.

Foto: Divulgação

Os até então formandos homenagearam com o nome da turma o cacique Joaquim Figueiredo e os tuxauas Daniél Góes e Osvaldo Lins (in memorian).

Em sua fala, o reitor mencionou a Constituição Federal de 1988 pelo qual o Estado Brasileiro passou a incorporar a concepção de diversidade étnico-cultural, implicando dizer que os povos tradicionais estão, nos termos da lei, com os direitos resguardados. “Na prática, o desafio de implementar políticas voltadas a esses povos é do tamanho da nossa região. É difícil promover conhecimento de forma que as etnias não se desassociem da cultura, de seu valor de pertencimento étnico, de sua língua materna ao passo que se insira nos processos de aprendizagem”, observou.

A professora Iraildes Caldas Torres comemorou ao ver que, dos 42 diplomas emitidos, 13 seriam conferidos a mulheres yanomami. Ela falou ainda dos avanços históricos desse povo dentro de um recorte temporal. “Estou academicamente feliz por vê-las se emancipando o que também é resultado do que observamos como resultado do intervalo de tempo a contar de 1952. Mais recentemente, há 30 anos as terras yanomami foram demarcadas e vocês têm buscado equilibrar apoderamento diante do mundo e cultura. Hoje, vocês têm um novo capítulo, uma nova conquista, que é importantíssima: a educação. É a educação o grande movimento do desenvolvimento humano”.

Educação diferenciada

A Universidade Federal do Amazonas está em São Gabriel da Cachoeira desde a década de 1990, quando chegou ofertando o curso de Filosofia, seguidos por outros cursos da área das humanidades. Pouco mais de 30 anos depois, atendendo e sensibilizada com a mobilização dos povos indígenas, organizou e executou um inédito projeto de levar educação diferenciada à calha do Rio Negro.

Com 113 anos de fundação, a Ufam é a primeira instituição do país a ir a comunidades indígenas a conferir outorgas de grau em um curso de graduação superior e diferenciado, voltado aos povos indígenas.

Durante a solenidade de colação de grau, o reitor recebeu das lideranças indígenas o pedido de fazer de Maturacá um polo, tal qual são polo Baniwa, Tukano e Yegatu (baré). No mesmo documento, essas lideranças demandaram a universidade por cursos de EAD, que já são, em sua parte, ofertados pelo Centro de Educação a Distância.

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