
‘A responsabilidade é minha’, diz Biden sobre retorno do Talibã ao poder
A missão dos Estados Unidos no Afeganistão jamais envolveu reconstruir o país, que, no domingo (15/8), mergulhou na sombra do extremismo. Teve como foco impedir a rede terrorista Al-Qaeda de usar o território como base para planejar atentados. Washington nunca mostrou a pretensão de criar uma democracia unificada e centralizada para os afegãos.
Durante 18 minutos, esta foi a tônica do discurso de Joe Biden, forçado a interromper as férias em Camp David para explicar a volta da milícia fundamentalista islâmica Talibã ao poder e ao defender a retirada militar, enquanto o caos reinava no Aeroporto Internacional Hamid Karzai, em Cabul.
“Sou o presidente dos Estados Unidos, e a responsabilidade é minha. (…) Sustento firmemente minha decisão. Depois de 20 anos, aprendi a duras penas que nunca houve um bom momento para retirar as forças americanas”, declarou o democrata. “A verdade é que isto (a volta do Talibã) ocorreu mais rápido do que prevíamos.” Ele disse que os EUA agirão “rapidamente” contra o terrorismo no Afeganistão, “se necessário”.
Segundo o presidente, uma relação com o Afeganistão dependerá “das ações do Talibã”. “Um futuro governo afegão que defenda os direitos básicos do seu povo, que não receba terroristas e que proteja os direitos básicos da metade da sua população — suas mulheres e meninas —, este seria um governo com qual estaríamos dispostos a trabalhar”, assegurou.
Caso os talibãs ataquem interesses dos EUA ou atrapalhem a retirada dos milhares de diplomatas americanos, Biden avisou que responderá com “força devastadora, se necessário”. Ele prometeu, ainda, “falar abertamente” pelas mulheres afegãs.
Estudante da Universidade de Cabul, Aisha, 22 anos, é uma delas. Nas últimas 48 horas, tentou fugir por duas vezes do Afeganistão. Enviou à reportagem uma foto que mostra o pé esquerdo com feridas. “As pessoas corriam dentro do aeroporto, aos milhares. Meus joelhos e minhas mãos sangram. A situação no aeroporto é péssima. Houve disparos lá”, contou.
Afegãos escalaram uma aeronave da companhia aérea Kam Air e o finger (equipamento que liga o terminal de passageiros à porta da aeronave). Em uma cena icônica, centenas de civis correram ao lado de um cargueiro norte-americano enquanto decolava. Alguns se abrigaram no trem de pouso, e dois despencaram do céu para a morte, diante das câmeras.
Soldados americanos mataram dois homens armados no aeroporto. “Biden insiste sobre seus erros e não aceita o mau gerenciamento da situação em meu país. Os responsáveis pelo que vivemos hoje são Ashraf Ghani (o presidente que fugiu no sábado), Zalmai Khalizad (emissário americano para o Afeganistão) e Biden”, disse Aisha.