
Covid longa: mais de cinco sintomas é sinal de alerta; veja sequelas mais comuns
No maior estudo já realizado sobre a covid longa — persistência de sintomas após a fase aguda da doença —, uma equipe de pesquisadores liderados pela Universidade College London, na Inglaterra, detectou 203 condições que afetam 10 sistemas e órgãos de ex-pacientes. De fadiga a disfunção sexual, passando por descontrole da bexiga, alucinação e palpitação cardíaca, algumas chegam a permanecer por até sete meses, segundo o artigo publicado na revista EClincialMedicine, no grupo Lancet.
A pesquisa incluiu dados de 3.762 pessoas de 56 países, incluindo Brasil. Os participantes foram contatados por meio do grupo Covid-19 on-line, que criou uma pesquisa respondida pela internet na qual eles deveriam relatar sintomas da doença longa confirmados ou suspeitos, além de informar sobre como isso impactou na vida diária e no trabalho. Das 203 condições descritas, os pesquisadores monitoraram 63 ao longo de sete meses.
A ampla gama de sintomas incluiu tremores, coceira na pele, alterações no ciclo menstrual, herpes zoster, perda de memória, visão turva, diarreia e zumbido, entre outros. Os mais comuns foram fadiga, mal-estar pós-esforço (piora dos sintomas após esforço físico ou mental) e disfunção cognitiva, geralmente chamada de névoa cerebral.
Os resultados indicaram que a probabilidade de os sintomas permanecerem além de 35 semanas (mais de sete meses) foi de 91,8%. Dos 3.762 entrevistados, 96% relataram sofrê-los além de 90 dias, 2.454 os apresentaram por pelo menos seis meses e apenas 233 se recuperaram completamente no período do estudo.
Os pesquisadores constataram que o tempo de recuperação tem associação com a data em que os sintomas atingiram o pico: no caso daqueles recuperados em menos de 90 dias, isso aconteceu na segunda semana pós-fase aguda; já entre os que levaram mais tempo para se verem livres das sequelas, o auge foi no segundo mês. Quase 90% dos pacientes tiveram recaídas, sendo o exercício, a atividade física ou mental e o estresse os principais desencadeadores. Quarenta e cinco por cento relataram a necessidade de um horário de trabalho reduzido e 22,3% não estavam trabalhando no momento da pesquisa.
“Pela primeira vez, um estudo ilumina o vasto espectro de sintomas, particularmente neurológicos, prevalentes e persistentes em pacientes com covid longa”, comenta a principal autora, Athena Akrami, neurocientista da Universidade College London. Segundo ela, a maioria dos países foca os programas de recuperação na reabilitação respiratória, negligenciando importantes sequelas.
“Perda de memória e disfunção cognitiva, experimentadas por mais de 85% dos entrevistados, foram os sintomas neurológicos mais difundidos e persistentes, igualmente comuns em todas as idades e com impacto substancial no trabalho”, continua. “Dores de cabeça, insônia, vertigem, neuralgia, alterações neuropsiquiátricas, tremores, sensibilidade a ruído e luz, alucinações (olfatórias e outras), zumbido e outros sintomas sensório-motores também foram comuns e podem apontar para maiores questões neurológicas envolvendo o sistema nervoso central e periférico”, destaca Akrami.
A neurocientista destaca que há “uma necessidade clara de ampliar as diretrizes médicas para avaliar uma gama muito mais ampla de sintomas ao diagnosticar a covid longa”. “Além disso, é provável que haja dezenas de milhares de pacientes sofrendo em silêncio, sem saber se seus sintomas estão relacionados à covid”, diz.