
Os diretores de “Currais” percorrem as cidades que abrigaram estes espaços onde as pessoas eram abandonadas até a morte durante a década de 1930. Foto: Divulgação
O documentário “Currais” mistura ficção e documentário para expor uma das feridas mais trágicas do povo brasileiro e ainda hoje desconhecida. O filme conta como o Estado brasileiro agiu para evitar que as famílias de flagelados atingidos pela seca da década de 1930 do século passado chegassem à cidade de Fortaleza, capital do Ceará. As pessoas, entre elas crianças e idosos, eram mantidas aprisionadas em campos de concentração na capital e no interior do Estado, onde eram submetidas a um regime de trabalho escravo em troca de restos de comida e, após a morte, enterradas em valas comuns.
“Currais” tem direção de Sabina Colares e David Aguiar e chegará aos cinemas selecionados e às plataformas digitais iTunes, Apple TV+, Google Play, YouTube Filmes, Vivo, Now e Looke a partir do dia 1º de abril. O trailer está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=txaietM8pX8
Esses campos de concentração fundaram alguns dos bairros periféricos mais violentos e de maior densidade demográfica de Fortaleza e do Brasil: o Pirambu. “Minha família é do interior do Ceará e as histórias da seca, bem como as terríveis formas de exploração do sertanejo que presenciei, me marcaram. Daí chegamos à imensa desigualdade social e violência da cidade de Fortaleza. Eu e Sabina percebemos que a maior parte dos bairros periféricos desta capital parece ter se formado com os movimentos migracionais dos retirantes”, explica David Aguiar.
Em “Currais” acompanhamos a trajetória de Romeu, personagem fictício que viaja pelo sertão do Nordeste em busca de respostas e vestígios dos tais campos de concentração. O protagonista vai costurando memórias a partir de relatos reais, documentos e fotos.
Os diretores, após quatro anos de pesquisas, percorrem as cidades que abrigaram estes espaços onde as pessoas eram abandonadas até a morte. “Quando nos deparamos com essa situação radical de nosso país, queremos entender a nossa história, não para conhecer um passado morto, mas para compreender como essas injustiças e esses movimentos fascistas de tempos passados sobrevivem atualmente, agora. E acho que o ‘Currais’ é isso, é esse passado vivo que naturalizamos hoje, assim como os poderes dos anos 1930 naturalizaram os campos de concentração”, avalia o diretor.

Remanescentes desses campos de concentração narram fragmentos de memórias ao longo do filme. Foto: Divulgação
Na seca de 1932, no Ceará, foram criados vários campos de concentração para aprisionar e impedir que os flagelados chegassem à cidade de Fortaleza. Militares e representantes da sociedade civil decidiram escravizá-los, legitimando os interesses da elite econômica por meio de políticas de repressão e higienização social. Remanescentes narram fragmentos de memórias e lutos interrompidos, testemunhados nos casarões em ruínas das concentrações e no culto das “almas da barragem”, resistentes ao forte apagamento histórico.
“Currais” recebeu o Prêmio Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema) de Melhor Filme de diretor estreante durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e percorreu outros festivais, incluindo o Cine Ceará (Prêmio de Melhor Filme Olhar do Ceará), a Mostra Competitiva de Tiradentes (MG), foi premiado no Festival de Aruanda do Audiovisual Brasileiro em João Pessoa (PB) como Melhor Direção, Direção de Fotografia, Direção de Arte e Atriz (Zezita Matos), e ainda foi premiado como Melhor Direção no Amazônia Doc (AM). Foi selecionado também para o International Documentary Film Festival de Buenos Aires, na Argentina, e para o Festival Cine del Mar em Punta del Leste, no Uruguai.