04/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

E-books gratuitos trazem obras de povos que contribuíram para a formação cultural brasileira

Publicado em 25 de dezembro, 2020

Ilustração inédita do artista André Ducci para a edição de “As Viagens de Gulliver”, um dos títulos para download gratuito do projeto “Literatura Livre”. Foto: Divulgação

Contos folclóricos africanos, textos fundadores das culturas japonesa e árabe, novelas escritas por judeus em alemão, poloneses em inglês, vivências de uma imigrante chinesa nos Estados Unidos, a opressão atávica dos pobres e nativos da América Latina; o conjunto demonstra os percalços dos “estranhos no ninho” e narrativas de mulheres escritoras que não devem ser esquecidas. Essas são algumas das histórias reunidas no projeto “Literatura Livre” (sescsp.org.br/literaturalivre), lançado pelo Sesc São Paulo na última terça-feira (22).

A iniciativa consiste numa coleção digital de obras originárias de povos que contribuíram para a formação da sociedade brasileira, seus costumes e seus laços afetivos e, principalmente, visa despertar a atenção dos brasileiros para as diferenças culturais que enriquecem suas experiências como cidadãos.

Ao todo são 14 e-books disponíveis para download gratuito nos formatos ePub, PDF e Kindle (compatíveis com todos os dispositivos, do computador aos celulares, tablets e leitores digitais).

A série começa com seis obras, lançadas neste mês. Em janeiro e fevereiro, novos títulos serão adicionados. Ao final, o site sescsp.org.br/literaturalivre se constituirá com uma biblioteca permanente dos 14 volumes.

Para todas as idades

Os títulos selecionados dialogam com leitores de todas as idades – crianças, jovens e adultos poderão se interessar, por exemplo, pelas desventuras de Wenzel Strapinski, um alfaiate desempregado e faminto que é confundido com um nobre e cai nas graças dos habitantes da cidade de Goldach. Suíça, Alemanha e Polônia são as nações que se confundem como inspiração para essa história apresentada em “As roupas fazem as pessoas”, registrada pelo escritor Gottfried Keller (1819-1890) e desenvolvida como uma narrativa sobre a natureza da sociedade europeia no começo do século 19, sua cegueira preconceituosa e sua leviandade diante das aparências.

Além de “As roupas fazem as pessoas” (1874), compõem o projeto os títulos “Contos de crianças chinesas” e “Sra. Fragância Primaveril” (1912), de Sui Sin Far; “Contos folclóricos africanos – Vol.1” e “Contos folclóricos africanos – Vol.2” (1901-1012), de Elphinstone Dayrell, George W. Bateman e Robert Hamill Nassau; “Contos sardos” (1894), de Grazia Deledda; “Coração das trevas” (1899), de Joseph Conrad; “Crônicas do Japão” (720), de Ō-no-Yassumaro e príncipe Toneri; “El Zarco” (1901), de Ignacio Manuel Altamiro; “Histórias do tio Karel” (1914), de Sanni Metelerkamp; “O Leviatã” (1938), de Joseph Roth; “Os miseráveis” (868), de Aljâhiz; “Pássaros sem ninho” (1889), de Clorinda Matto de Turner; e “Viagens de Gulliver” (1726), de Jonathan Swift.

Seis obras, entre elas “O Leviatã”, já estão disponíveis para download gratuito no site do projeto. Em janeiro e fevereiro, novos títulos serão adicionados. Foto: Divulgação

Bilíngue

Cada volume é sempre bilíngue: além da tradução inédita do texto integral para o português, o leitor tem acesso ao texto em domínio público, em seu idioma original. A produção ficou a cargo do Instituto Mojo de Comunicação Intercultural, com tradutores especializados para cada título e ilustrações inéditas criadas por André Ducci, ilustrador curitibano que colabora com publicações do Brasil e do exterior.

“Buscamos reunir textos interessantes e leves, mas também de importância acadêmica, pois o objetivo é que o público não apenas tenha acesso, mas possa conhecer, identificar ou redescobrir raízes características desses povos que se estendem até a contemporaneidade e constituem a nossa sociedade atual”, diz Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo.

“Existe uma lacuna entre o direito de acesso à obra e as mãos do leitor: a tradução. Embora esses autores e suas obras estejam em domínio público, os originais estão em inglês, alemão, árabe, japonês, e ainda resta o obstáculo da tradução livre a ser vencido. O projeto surge desse contexto”, conta Ricardo Giassetti, presidente do Instituto Mojo de Comunicação Intercultural, produtor do Literatura Livre.

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