03/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Pais questionam Lato Sensu sobre Covid-19 e portal ouve escola, FVS e MPAM

Publicado em 16 de outubro, 2020

Pais questionam Lato Sensu

Pais questionam Lato Sensu sobre os procedimentos e comunicação de casos relacionados à pandemia de coronavírus

Reportagem: David Batista

Esta é uma matéria que, em jornal tradicional, de papel, mereceria página dupla. Tenha paciência e leia até o fim. Aqui você vai encontrar:

1) os questionamentos dos pais;

2) a posição da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS);

3) a posição do Ministério Público Estadual do Amazonas (MPAM);

4) a posição do Sindicato das Escolas Particulares de Manaus (Sinepe-AM). O Sinepe forneceu dados à Folha de S. Paulo para matéria em que a publicação diz que, após 60 dias de retorno presencial, não foi registrado nenhum caso de coronavírus em escolas particulares de Manaus;

5) a posição da direção da escola.

Vamos lá:

A reabertura de aulas presenciais, em escolas públicas e privadas, tem recebido questionamentos. O Colégio Lato Sensu, onde trabalhava a professora Lucilene Marques, 50, falecida por Covid-19 no dia 6/10, tem sido alvo de descontentamentos, principalmente de pais. “Questionamos o formato como estão comunicando casos confirmados ou suspeitos de coronavírus. A impressão que dá é que a escola não que deixar registro de estar ciente, que estão acontecendo casos de coronavírus”, disse Raimundo Santos, pai de três alunos do Lato Sensu.

As reclamações vão desde falta de comunicados formais, em documentos, ações efetivas, após descoberta de contaminados, até à acusação de ocultação do número de casos na instituição. Pais pedem que procedimentos de biossegurança sejam reavaliados e novas medidas de segurança nas aulas presenciais.

O Lato Sensu informou que adota, nos casos suspeitos, triagem e monitoramento de saúde, distanciamento, higienização, sanitização, controle e acompanhamento. E que todos os protocolos estão alinhados às orientações dos órgãos competentes e da consultoria médica, que já foi amplamente compartilhada com as famílias, no plano de retomada das aulas presenciais.

Raimundo Santos, pai que não titubeia em revelar as preocupações, nem ter o nome publicado, conta que já procurou a direção da escola pelo menos três vezes para questionar procedimentos. Segundo ele, quando há casos notificados ou suspeito, o colégio só  informa os pais após o período de mais ou menos duas semanas. E esse informativo acontece via ligação telefônica. “Esse tempo é perigoso, porque a criança ou colaborador contaminado já circulou pela escola e não está criando um ambiente seguro. E, repito, tudo é via verbal, nada registrado. Não há registro na agenda. Já houve casos que tomei conhecimento através das próprias crianças, meus filhos e amigos dos meus filhos”, diz o pai.

André Pacheco, outro pai que procurou o portal, questiona até mesmo a necessidade de retorno das atividades presenciais. O colégio informa que, se o aluno quiser, pode assistir às aulas apenas de casa. Entrega de livros com exercício e avaliações presenciais, quase que diariamente, porém, indiretamente, acabam forçando a ida desses alunos ao colégio. “Eles poderiam estudar de casa e ir até a escola apenas uma vez na semana ou no mês, para serem avaliados. Isso diminuiria a exposição, logo, também o contato”, diz André.

A entrega de livros aos professores, para correção de exercícios, é insegura, avalia André. “É difícil confiar se os educadores estão manuseando de forma adequada o material, utilizando-se dos cuidados com a higiene e álcool em gel”.

O Lato Sensu informou que, quando o caso é de um aluno, o comunicado é feito, por telefone, a responsáveis pelos alunos do mesmo grupo de convivência estabelecido para o rodízio do modelo híbrido. É  intensificado o monitoramento de saúde do grupo, a partir daí, e solicitado o apoio das famílias nesse sentido. “No caso de haver mais de um caso em um mesmo intervalo de 14 dias, confirmado no mesmo grupo, procedemos o afastamento do grupo, como medida preventiva, por 14 dias”, diz nota da instituição.

 

Falha no uso de máscaras e mais casos que os revelados

Raimundo afirma ter visto, pessoalmente, em umas das aulas virtuais dos filhos, alunos dentro de sala sem máscara. André também lembra de, quando foi solicitar atendimento na coordenação, uma colaboradora tentar prestar o serviço sem o uso adequado da máscara, Equipamento  de Proteção Individual (EPI) obrigatório. O pai conta que chegou a comunicar à coordenação sobre a falha, além de ter solicitado que a atendente colocasse a máscara.

Raimundo conta que, após ficar sabendo que um dos amigos da filha não frequentaria as aulas, por suspeita de coronavírus, procurou a direção escola. Até então havia o comunicado sobre apenas um caso. Quando o pai chegou no colégio, a atendente informou que já havia dois casos. “Foi uma surpresa”, disse. “Questionei se o amigo da minha filha era o outro caso e soube que não”, lembra.

“Minha filha é asmática. Quando perguntei sobre o colega que estuda na mesma sala da minha filha, quem ficou surpresa foi a atendente. Ela puxou uma lista, olhou e disse que o aluno não estava lá. Por alto, naquele momento, já havia mais ou menos oito a nove casos. Poxa, e nós fomos comunicados apenas sobre dois”, reclama Raimundo.

“Entendo que o colégio é uma comunidade. Essas informações deveriam ser amplamente divulgadas, sem nomes, é óbvio. Mas, sabendo do real cenário, nós pais vamos ter mais ou menos uma ideia para onde estaremos levando nosso filhos”, acrescenta André Pacheco.

 

Folha noticia ausência de casos, revoltando pais e professores

Uma matéria veiculada pelo Jornal Folha de São Paulo, edição do dia 12/09, causou indignação, tanto em pais e professores do Lato Sensu. De acordo com reportagem, após dois meses do retorno das aulas na rede privada de ensino, Manaus não havia registrado nenhum caso de Covid-19 nas escolas particulares. O jornal tomou como base informações fornecidas pelo Sindicato das Escolas Particulares de Manaus (Sinepe-AM).

Os genitores afirmam que, na semana que antecedeu a matéria, já havia relatos de dois casos de coronavírus no Lato Sensu. E questionam o fato de a matéria ter recebido informações do Sinepe e não da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS). Professores, que anteriormente entraram em contato com o portal, também citaram o fato. “Li a matéria de manhã e à tarde recebi a ligação do colégio, informando que uma criança na  sala do meu filho testou positivo e havia sido afastada”, revela André Pacheco.

O Sinepe, ouvido pelo portal, disse que o Lato Sensu não é associado ao sindicato e, por isso, não recebe dados de contaminados nessa instituição. O Sinepe reforça que os dados enviados para A Folha eram referentes às 60 escolas registradas na associação.

“Elaboramos um plano de retorno junto a FVS-AM e orientamos os nossos associados a seguirem à risca os protocolos. Além disso, abrimos um canal de comunicação e orientação aos não associados porque entendemos que quanto mais informação e orientação a respeito do assunto é importante”, explica a presidente do Sinepe, Elaine Saldanha. Além disso, o sindicato ressalta que toda e qualquer divulgação de dados deve ser coletada apenas com a FVS.

O Lato Sensu reafirma que não é associado ao Sinepe e que todos os casos confirmados são notificados ao CIEVS-FVS, conforme determinado no decreto Nº 42461, de 03/07/2020, do Governo do Estado do Amazonas. E também às pessoas diretamente envolvidas naquele contexto.

 

FVS recebe denúncias

O portal procurou a FVS para saber se havia recebido notificação sobre casos dentro do Lato Sensu, no período de 01/09 a 15/09, semana que antecedeu à matéria da Folha. A assessoria de imprensa da FVS respondeu que dois casos confirmados não eram de trabalhadores da educação e sim pais de alunos, que informaram que os filhos não levariam os filhos por conta desses resultado. Nas últimas semanas, a fundação recebeu várias denúncias de pais de Lato Sensu, inclusive de óbito de professores.

Todos os casos, tanto da rede particular da educação quanto da pública, são notificados pelo Sistema de Informação dos Serviços de Saúde. As escolas compartilham informações com a FVS, que compara a informação com a do E-sus notifica ou Sivep-gripe.

 

Ministério Público do Amazonas apura transparência nos dados

O portal procurou o Ministério Público do Amazonas (MPAM) para saber do controle quanto aos dados fornecidos pelas instituições. O MPAM respondeu que a Ouvidoria do Ministério Público recebeu, na quinta-feira (08/10), uma denúncia de que o Lato Sensu não está cumprindo o protocolo. A manifestação foi registrada como Notícia de Fato e seguirá o trâmite normal para denúncias, sendo distribuída para uma promotoria de atuação na área correlata. As pessoas que protocolaram a manifestação receberam um número de protocolo e poderão acompanhar o andamento da mesma no site do MPAM.

Sobre a FVS, o MPAM informou que, diante da matéria veiculada pela agência de notícias “The Intercept Brasil”, de 05/10, esclarece:

“1. A 58ª Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos à Saúde Pública (PRODHSP)instaurou no dia 07.04.2020, Procedimento Preparatório(Portaria nº 0010/2020/58ªPJ) com finalidade de verificar a possível ocorrência de inconsistências de dados de casos suspeitos de COVID-19 na rede pública de saúde.

  1. Referido Procedimento não teve decretado qualquer sigilo, afastando a necessidade de interceptação não autorizada para se obter dados, tendo em vista que há o fornecimento natural de informações aos que participam dos atos praticados, bem como ao público em geral, nos termos da Resolução nº 23/2007-CNMP.
  2. No dia 11.09.2020 foi realizada Audiência, que contou com a participação de diversas autoridades públicas e pesquisadores, no intuito de compreender as possíveis inconsistências existentes no Boletim Diário de COVID-19, ocasião em que a Fundação de Vigilância em Saúde se comprometeu a adotar providências.
  3. Não obstante a instrução do investigatório retro mencionado, o Ministério Público do Estado do Amazonas e o Ministério Público Federal propuseram Ação Civil Pública, registrada sob o nº 100.6593-64.2020.4.01.3200 na Justiça Federal, que trata da transparência de dados referentes à COVID-19, feito que também se encontra em pleno andamento e que, por determinação judicial, impôs a estruturação de informações públicas.

 

Eis a nota enviada ao portal pelo Colégio Lato Sensu:

“Para evitar a disseminação do vírus, dentro da instituição, temos mantido todos os protocolos orientados pelos órgãos competentes, bem como ações e medidas implantadas pela escola e que estão baseadas em estudos realizados sobre experiências positivas ao redor do mundo, bem como na análise e orientação de nossa consultoria médica.

Além disso, reiteramos a necessidade da parceria com todas as famílias e colaboradores, no sentido de permanecerem atentos aos sintomas do COVID-19 e, principalmente, de manter a escola informada, seja para suspeitos ou confirmados. Essa comunicação é imprescindível para que a escola possa atuar com agilidade e em conformidade com o protocolo acima descrito.

O colégio Lato Sensu reafirma o seu compromisso e responsabilidade com a saúde e bem-estar de toda a comunidade escolar e permanece disponível ao diálogo.”

Veja mais notícias em Geral

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.