
O desmatamento na Amazônia foi tema central de uma webconferência realizada pelo TCE-AM nesta sexta-feira. Foto: Reprodução
O desmatamento na Amazônia foi tema central de uma webconferência realizada pelo Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) nesta sexta-feira (17/7). O evento contou com a participação de autoridades ligadas ao meio ambiente e do governador do Amazonas, Wilson Lima. Ricardo Galvão, ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) fez críticas à política ambiental do governo do presidente Jair Bolsonaro e afirmou que há 7 mil garimpos ilegais na Amazônia. A webconferência também discutiu modelos sustentáveis para a região e sobre bioeconomia.
Com o tema ‘Desmatamentos e Queimadas na Amazônia, desafio de todos!’, o evento online buscou debater possíveis soluções para a região. No centro das discussões estavam caminhos para exploração sustentável da floresta, proteção da Amazônia, políticas socioambientais, Amazônia 4.0 e ferramentas que ajudem no combate ao desmatamento e queimadas na floresta.
Participaram dos debates os PhDs Carlos Nobre, presidente do Comitê International Geosphere Biosphere Programme (IGBP); Ricardo Galvão, ex-presidente e atual diretor do Inpe; Ismael Nobre, especialista em manejo de áreas protegidas e desenvolvimento sustentável; o governador Wilson Lima, o titular da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), Eduardo Taveira e o presidente da Atricon, conselheiro Fábio Nogueira.
O presidente do TCE-AM, conselheiro Mario de Mello, abriu os debates. Ele começou citando estudos e pesquisas da jornalista americana Elizabeth Kolbert. Em seu terceiro livro, ‘A Sexta Extinção’, ela explica de que maneira e por quais motivos o ser humano alterou a vida no planeta.
Após criticar políticas a respeito do meio ambiente, Mario de Mello destacou que a preservação é um direito e obrigação de todos. O conselheiro defendeu uma política ambiental integrada e o fortalecimento do sistema nacional de controle do meio ambiente como ferramenta de preservação, conservação e controle da floresta.
Durante seu discurso, Wilson Lima fez breve balanço das ações realizadas pelo seu governo voltadas à preservação do meio ambiente. O governador destacou a redução em 12% do índice de queimadas na região amazônica em junho deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado.
Wilson Lima também ressaltou a adesão à Garantia da Lei e da Ordem (GLO) com a ajuda do Exército Brasileiro, o lançamento do Plano de Controle, Queimadas e Prevenção; pagamentos por Serviços Ambientais realizados por ribeirinhos.
De acordo com o governador, o Amazonas está mobilizado nas ações de prevenção e controle ao desmatamento e queimadas. “E muito mais importante que a presença do Exército, da Polícia Ambiental ou agentes do Ibama fiscalizando a floresta, é a qualificação dos próprios moradores da região. Se eles possuírem uma renda e executarem uma atividade sustentável, e que ganhem uma compensação para proteger a floresta, eles serão os primeiros a ajudar na preservação”, enfatizou.
Ricardo Galvão, ex-presidente do Inpe e presidente do Comitê International Geosphere Biosphere Programme (IGBP) fez críticas à política ambiental do governo Bolsonaro. Para o cientista, falta formulação de políticas públicas para as florestas brasileiras.
Galvão afirmou que a falta de representatividade junto a órgãos internacionais fez com que o Brasil perdesse o protagonismo junto aos comitês internacionais relacionados a mudanças climáticas e preservação do meio ambiente. De acordo com o pesquisador, isso prejudicou a entrada de investidores internacionais, que exigem preservação ambiental como contrapartida aos investimentos.
Ricardo Galvão disse que o mundo registra subidas bruscas de temperatura/aquecimento global, desde 1985. Para ele, política e ciência sempre andaram em linhas opostas.
O cientista afirmou que, somente na Amazônia, existem mais de 7 mil garimpos ilegais. Segundo ele, os garimpeiros são os principais responsáveis pelo desmatamento na floresta. O pesquisador disse que políticas mais efetivas e ações emergentes ajudariam a diminuir ou frear a devastação da Amazônia.
Conforme o professor-doutor Carlos Nobre, falta democracia representativa no Congresso. Ele disse que 96% da população do país é contra o desmatamento na Amazônia. Porém, segundo ele, há desconexão entre a vontade do brasileiro de preservar a floresta e ações realizadas pelo Legislativo nacional.
De acordo com Carlos Nobre, exigências de selos de rastreabilidade de produtos como carne, móveis de madeira ou outros produtos provenientes da floresta ajudariam a diminuir ou evitar a exploração ilegal. “Se o consumidor brasileiro perdesse a timidez e exigisse mais sobre a origem desses produtos, isso faria com que a indústria de exploração ilegal se adequasse às normas de sustentabilidade e preservação, porque, caso contrário, não teriam espaço para vendas deste produtos ilegais”, disse.
“É preciso apostar na bioeconomia baseada no uso dos ativos biológicos e biomiméticos para desenvolver a Amazônia”, defendeu Ismael Nobre, especialista em manejo de áreas protegidas e desenvolvimento sustentável, ao falar sobre a chamada era da 4ª Revolução ou Amazônia 4.0.
Para o pesquisador, o Brasil tem tudo para se transformar em potência ambiental e ser líder mundial da economia circular – baseada na reutilização e reciclagem. De acordo com ele, apesar das dificuldades, o país tem potencial para saber aproveitar suas riquezas como ativo de desenvolvimento econômico, tecnológico e social.
O caminho seria mergulhar nas possibilidades da bioeconomia, aliando o conhecimento da biodiversidade às possibilidades da Amazônia 4.0, que alinha tecnologia e sustentabilidade.
“Como podemos desenvolver sem desmatamento?”, perguntou o professor Ismael. “Retomar, ampliar e aprofundar nosso compromisso com a conservação do planeta, cumprindo as metas assumidas pelo país no Acordo de Paris (2015). A ideia é nos tornar exemplo para uma sociedade global cada vez mais consciente e preocupada com a crise ambiental e sua dimensão climática faria com que esse desenvolvimento acontecesse de forma menos agressiva à floresta”, respondeu.
O aplicativo para smartphones ‘Sou Eco’ foi lançado durante o evento. A ferramenta possibilita que cidadãos enviem denúncias de crimes ambientais ou sobre a má prestação de serviços públicos diretamente ao TCE-AM, com fotos e possibilidade de georreferenciamento.
Idealizado pelo coordenador de ações ambientais do TCE-AM, conselheiro Júlio Pinheiro, o app foi desenvolvido em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Júlio Pinheiro também mediou os debates desta sexta.
Ao final da webconferência, os participantes responderam a questionamentos feitos pelos internautas. O evento durou cerca 3 horas e 40 minutos. A transmissão foi feita pelas redes sociais do TCE-AM, contando com tradução simultânea em inglês e espanhol, além da interpretação em Libras.
Reportagem: David Batista
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