
Anvisa libera cloroquina para pacientes internados, já com a posologia. Foto: Edson Aquino/Secom
O Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estão disponibilizando para uso, a critério médico, o medicamento cloroquina como terapia adjuvante no tratamento de formas graves do novo coronavírus, em pacientes hospitalizados, sem que outras medidas de suporte sejam preteridas em seu favor.
Os casos de indicação para o tratamento são os chamados graves e críticos, onde os pacientes hospitalizados apresentam dispneia, inflitração pulmonar, falência respiratória, choque séptico e/ou disfunção de múltiplos órgãos. Entre as orientações, a nota do Ministério da Saúde informa que os tratados com a medicação tenham verificação de eletrocardiograma.
Na última quarta-feira (25), o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anunciou que o governo brasileiro iria inserir a cloroquina no protocolo de tratamento de pacientes com Covid-19 em hospitais e disponibilizar o produto aos médicos. Durante a coletiva, ele reverenciou os pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), na zona Oeste de Manaus, que usam o medicamento para tratar pacientes com malária.
A medida considera que não existe outro tratamento específico eficaz disponível até o momento. Importante ressaltar que há dezenas de estudos clínicos nacionais e internacionais em andamento, avaliando a eficácia e segurança de cloroquina/hidroxicloroquina para infecção por Covid-19, bem como outros medicamentos, e, portanto, o uso do medicamento poderá ser modificada a qualquer momento, a depender
de novas evidências científicas.
Veja a nota do MS aqui: Nota Informativa_05-2020_DAF_SCTIE_Cloroquina (1)
As dosagens para uso, situações nas quais utilizar o remédio e considerações clínicas, além da dosagem, foram publicadas na nota informativa nº 5/2020-DAF/SCTIE/MS, com o tema “Uso da Cloroquina como terapia adjuvante no tratamento de formas graves do Covi-19”.
A nota considera a pandemia ocasionada pelo novo coronavírus declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a situação epidemiológica brasileira, além da inexistência de terapias farmacológicas e imunobiológicos específicos para a infecção e a taxa de letalidade da doença em indivíduos de idade avançada.
O Ministério da Saúde considera as diversas publicações recentes com dados preliminares sobre o uso da cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes com Covid-19 e cita ainda que o tratamento é de baixo custo, de fácil acesso e também facilmente administrada, chamando atenção ainda para a capacidade nacional de produção pelos laboratórios públicos brasileiros em larga escala e da condição de abastecimento desse medicamento a nível estadual e municipal.
Conforme a nota, algumas publicações científicas internacionais têm sugerido que esses fármacos podem inibir a replicação de SARS COV, por meio da glicosilação terminal da Enzima Conversora de Angiotensina 2, produzida pelos vasos pulmonares, que pode afetar negativamente a ligação vírus receptor (Al Bari, 2017 e Savarino 2006).
Com relação ao SARS COV 2, estudos demonstraram que após 6 dias de tratamento com hidroxicloroquina (e hidroxicloroquina em associação com azitromicina), 70% dos pacientes estava sem detecção viral em relação ao grupo controle, o que em caráter preliminar, pode sugerir um potencial efeito antiviral no coronavírus humano. Em uma recente revisão sistemática rápida foi observado o efeito da cloroquina na inibição da infecção viral por meio do aumento do pH endossômico, permitindo assim a fusão viral/celular.
Também foi observado que esse medicamento contribuiu para a prevenção da disseminação do vírus em culturas celulares. Os modelos animais incluídos nesta revisão mostraram que a cloroquina e hidroxicloroquina podem interromper a infecção viral.
Os eventos adversos relatados a longo prazo devido ao uso da cloroquina incluem renopatia e distúrbios cardiovasculares. Considera-se que o uso de cloroquina ou de hidroxicloroquina pode ser seguro, embora, a janela terapêutica (margem entre a dose terapêutica e dose tóxica) seja estreita (Touret, 2020, UptoDate). O seu uso deve, portanto, estar sujeito a regras estritas, e automedicação é contra-indicada.
ExpertiseAo falar dos estudos que estão sendo feitos sobre a eficácia do tratamento e a observação dos efeitos colaterais, Mandetta citou a expertise dos pesquisadores do Amazonas. “Já que o Brasil tem uma das maiores áreas do mundo de incidência de malária, principalmente lá da turma da Fundação de Medicina Tropical, de Manaus, que tem uma vasta experiência, são aquelas pessoas que sabem como ele se comporta (…). Então o nosso protocolo foi feito com o que o Brasil conhece, da maneira como a gente trata, pelo tempo que a gente trata e tem que ser monitorado”, afirmou.
É de iniciativa dos pesquisadores da FMT-HVD uma das pesquisas aprovadas, na semana passada, pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Cone) para testar a cloroquina em pacientes com a Covid-19. O estudo, que teve o aval do Governo do Amazonas, tem a parceria da Secretaria de Estado de Saúde (Susam), Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) e da Fiocruz.
O governador Wilson Lima aprovou a realização dos testes do ‘CloroCOVID19’, que já estão sendo feitos nos pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Delphina Aziz, na zona Norte, diagnosticados com a Covid-19.
Inicialmente, o produto está sendo disponibilizado pela Fundação de Vigilância. “A FVS disponibilizou os comprimidos (de cloroquina), considerando que são medicamentos utilizados na nossa rotina para o tratamento de malária e o Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública) fez o diagnóstico inicial desses pacientes e vai fazer o monitoramento durante o tratamento. No sétimo dia de tratamento, o Lacen vai coletar novamente amostras para que nós possamos realizar o exame e ver a carga viral, se a quantidade de vírus diminuiu, se acabou, se está negativa ou não”, explicou a diretora-presidente da FVS, Rosemary Pinto.
Rosemary afirmou que se trata de uma pesquisa clínica de efetividade de um medicamento e que a indicação é para que não se trabalhe com pessoas assintomáticas ou com poucos sintomas. Os testes são realizados em pacientes que estão internados, com quadros agravados, precisando de tratamento de UTI.
Estudos realizados na França, China e Estados Unidos têm demonstrado que o uso da cloroquina apresenta potencial para promover melhora do quadro clínico de pacientes acometidos por Covid-19 em estado grave.
No Amazonas, a pesquisa é liderada por Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, pesquisador do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia) e médico infectologista da Fundação de Medicina Tropical.
“Existem vários estudos no mundo. Os chineses estavam com 23 estudos em andamento, tiveram que parar porque os pacientes de lá acabaram. Então, agora que a epidemia chegou aqui é que a gente no mundo ocidental está tentando fazer os primeiros estudos. Há outros estudos que estão acontecendo em paralelo, o que é bom, porque se um estudo mostra um resultado e outro não mostra, se os resultados estiverem conflitantes, a gente vai poder ter essas informações todas para dizer para o poder público se deve ou não usar a medicação”, observou o infectologista.
Veja mais notícias em Cidade