
Cloroquina pode matar, diz Marcus Barros, após Trump apontar remédio (usado contra malária) como cura do Coronavírus
A Cloroquina, remédio utilizado contra a malária, está sendo apontado como cura para o Coronavírus. O próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a “grande descoberta”. O médico e pesquisador do Hospital de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado Marcus Barros discorda. “Esse remédio só pode ser administrado em ambiente hospitalar. Pode levar a cegueira, surdez e morte”, adverte.
Marcus Barros foi diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), reitor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e diretor do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Além de ser um dos mais respeitados clínicos e pesquisadores do Brasil.
O especialista se apoia nas opiniões da médica de Medicina Legal/ Perícia Angélica Kolody Mammana e da Pediatra Geral Sumaia Duduss. Elas ficaram alarmadas, depois que Reuquinol e Plaquinol, ambos à base de Cloroquina, praticamente desapareceram das farmácias de São Paulo. “Com o anúncio de Trump, as coisas devem piorar”, escreveu Marcus.
Cloroquina “Não é do tipo que a pessoa pode tomar sozinha, como um Tylenol ou uma Neosaldina. Há efeitos colaterais gravíssimos, que podem levar à cegueira, à surdez e à morte”, dizem as médicas.
” INFORMAÇÃO RELEVANTE. Por favor leiam.
Hoje o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que a entidade reguladora de medicamentos do país vai acelerar o processo de aprovação para potenciais terapias que tenham efeito contra o coronavírus (Covid-19). Trump citou especificamente a droga antimalária cloroquina.
Há alguns dias, no meio médico, já vinham sendo liberados, aos poucos, estudos sobre a eficiência da cloroquina no tratamento da Covid19. Trata-se ainda dos primeiros estudos e vinham sendo tratados com cautela.
Mas notícia corre rápido em tempos de desespero.
A consequência é que medicamentos como Reuquinol e Plaquinol (cloroquina) praticamente desapareceram das farmácias de São Paulo. Hoje, com o anúncio de Trump, as coisas devem piorar.
É que, vendidos sem receita, os medicamentos passaram a ser alvo de quem costuma ter gestos desesperados e, na hora da dificuldade, pensa apenas em si mesmo e não no bem comum. Estes pertencem ao mesmo grupo dos que limpam as prateleiras dos supermercados e esgotam os estoques de máscaras e álcool gel.
No entanto, há uma armadilha no uso de Cloroquina. Não é um remédio simples. Não é do tipo que a pessoa pode tomar sozinha, como um tylenol ou uma neosaldina. Há efeitos colaterais gravíssimos, que podem levar à cegueira, à surdez e à morte.
Sobre a Cloroquina, minhas amigas médicas Dra. Sumaia Duduss – Pediatra Geral e Angélica Kolody Mammana explicam o seguinte:
Ou seja, os apressados vão colocar a vida em risco, desabastecer o mercado e causar enormes prejuízos aos doentes que precisam deste medicamento.
O remédio parado na sua casa pode ser essencial para salvar a vida de outras pessoas que dele realmente precisam.
Por favor, converse com o seu médico antes de tomar uma atitude precipitada. Inclusive, pode fazer perguntas nos comentários. Há vários amigos médicos aqui na timeline (marquei muitos amigos) e vários deles certamente terão muito prazer em esclarecer as coisas.
No momento, o mais importante é ficar em casa, lavar as mãos e usar álcool gel.
Já nos basta a aflição desses tempos. Para que piorar tudo com atitudes precipitadas e egoístas?
#coronavirus #cloroquina #covid_19″
Estudo de 2010, do médico da Divisão de Ciências da Saúde, do paulista Instituto Internacional de Ciências Sociais, Augusto Cézar Lacava, aborda o tema. Fala das “Complicações oculares da terapêutica com a cloroquina e derivados”.
Outro texto, não identificado, que circula no meio médico, analisa o estudo, atribuído a “especialistas franceses”. Remete à fonte do trabalho, o site mediterranee-infection.com. Esse estudo francês vem sendo fartamente noticiado na imprensa internacional. Veja os links abaixo:
http://www.rfi.fr/br/frança/20200318-laboratório-francês-disponibiliza-milhões-de-doses-de-antimalárico-que-dá-resultado-?ref=wa
https://www.nature.com/articles/s41421-020-0156-0
https://noticias.r7.com/internacional/trump-anuncia-que-eua-vao-liberar-medicamento-para-tratar-covid-19-19032020

A “grande mídia” comprou a versão do presidente Trump
“Pessoal, demorei para encontrar o artigo tão falado que mostrava a “cura” dos pacientes usando cloroquina. Foi publicado em um site de uma sociedade chamada Mediterranée Infection. A razão de não ter sido publicado em uma revista de impacto é simples. O estudo é péssimo. Muito ruim mesmo. E infelizmente ele vai fazer com que muita gente tome cloroquina ao bel prazer sem comprovação da sua eficácia. As recomendações das sociedades estão corretas em considerar seu uso em pacientes de alto risco internados, mesmo que não se tenha evidência forte do seu uso (uma vez que não temos evidência de nada até o momento, alguma evidência já é suficiente para entrar no protocolo). Vou resumir alguns pontos do artigo mostrando o porque ele é muito ruim e porque não devemos achar que foi encontrada a cura da doença:
(1) O desenho do estudo é inadequado. Eles usaram cloroquina em pacientes de um hospital e depois pegaram pacientes de outros hospitais como controle. Não houve randomização, tampouco o critério de escolha do uso da cloroquina foi descrito.
(2) de 32 pacientes usando cloroquina, 6 tiveram seu seguimento perdido (sobraram 26), a maioria deles foram pacientes que pioraram e foram admitidos na UTI, um paciente que morreu e que deixou de contar no estudo (????) e um que fugiu do hospital (??). Perdas são um problema em qualquer estudo e nenhuma revista científica publicaria um estudo que trate as perdas desta maneira, como se fosse um mero detalhe.
(3) Pacientes foram avaliados “quando possível” através de swab, que foi o principal desfecho analisado (PCR de amostra da nasofaringe). “Quando possível” significa que não houve protocolo. Se não houve protocolo, difícil acreditar nos resultados.
(4) o desfecho “negativação do PCR no swab da nasofaringe” é um desfecho intermediário, assim como os resultados dos estudos feitos em laboratórios que mostraram que houve diminuição de replicação viral na presença da cloroquina. Com essa informação há duas perguntas que devem ser feitas: (a) o que muda com essa diminuição do PCR da nasofaringe? Deixa de transmitir? Deixa de evoluir a doença?, (b) será que essa diminuição se traduz em diminuição do risco de morte?? Esse é o principal desfecho e se quiserem encontrar resposta para essa pergunta precisa ser feito um estudo mais bem delineado e que explique melhor o que aconteceu com as perdas de seguimento.
Por enquanto, que evidência temos?
Cloroquina reduz replicação viral in vitro (bons estudos com bons protocolos e bons resultados)
Cloroquina parece reduzir carga viral em pacientes com doença clínica (estudo de baixa qualidade, sem descrição da alocação dos pacientes, sem aleatorização, sem descrição das perdas de seguimento).”
Veja mais notícias em Geral