18/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Justiça concede liminar para afastar médico acusado de violência obstétrica contra adolescente

Publicado em 26 de março, 2019

Em vídeo que viralizou nas redes sociais no final de fevereiro, o obstetra aparece agredindo uma parturiente de 16 anos durante parto. Foto: Reprodução

A pedido da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), a desembargadora Joana dos Santos Meirelles deferiu liminar para manter válida a decisão que afastou o médico Armando Andrade Araújo de suas atividades de plantonista.

Acusado de violência obstétrica e afastado do trabalho, o médico havia retornado as suas funções por força de decisão judicial. Em vídeo que viralizou nas redes sociais no final de fevereiro, o obstetra aparece agredindo uma parturiente de 16 anos durante parto realizado na Maternidade Balbina Mestrinho, na zona Sul de Manaus.

Recurso

Na segunda-feira (25), a Defensoria ingressou com um Agravo de Instrumento com Pedido de Efeito Suspensivo em que pedia para ser considerada no processo movido contra o profissional de saúde e o Instituto de Ginecologia e Obstetrícia do Amazonas (Igoam) como terceiro interessado e solicitava a suspensão da decisão que permitiu o retorno de Armando ao trabalho. O pedido da Defensoria é assinado pelos defensores Caroline Pereira de Souza, Suelen Paes dos Santos Menta e Thiago Nobre Rosas.

Para a defensora pública Caroline Souza, titular da 13ª Defensoria Forense Cível e coordenadora da Área Cível da DPE-AM, o pedido de afastamento do médico é necessário diante do histórico de Armando.

Violência

“Como é de conhecimento público, a Defensoria vem acompanhando os casos de violência obstétrica que têm acontecido nas maternidades públicas do Estado. Para nossa surpresa, houve uma decisão do juiz da 6ª Vara que autorizou o médico a retornar ao serviço. Desde a decisão, a Defensoria vem acompanhando o processo e não viu até ontem (segunda-feira) nenhum recurso nem do Estado e nem do Igoam, que são partes do processo. Como não houve recurso deles, a Defensoria Pública então recorreu na qualidade de terceiro interessado nesse processo e na defesa do direito das mulheres, das parturientes que são atendidas nessas maternidades e que podem vir a sofrer maus tratos por parte desse médico”, informou a defensora Caroline Souza.

Para pedir seu retorno aos trabalhos, o médico recorreu argumentando que não pode ser verificada agressão à parturiente em processo de parto normal. Segundo ele, ao ficar irritado com a insistência da paciente em ser levada para a realização de uma cesariana, desferiu um golpe com as mãos na mesa de instrumentos, não atingindo a paciente.

Caso antigo

O médico alega ainda que foi interpelado por outro profissional e que este é quem realizou o procedimento, que as imagens são antigas, tendo mais de 9 meses e que ele possui mais de 40 anos de atividade, jamais tendo agredido nenhuma paciente. Armando Andrade ainda alegou que não foi concedido a ele o direito ao contraditório e à ampla defesa e, assim, teve seu pedido acatado pela Justiça em primeira instância.

Para reverter a decisão, a Defensoria então ingressou com um Agravo de Instrumento, com pedido de efeito suspensivo, na condição de terceiro prejudicado, sustentando a legitimidade constitucional e legal para proteção de direitos coletivos ante a sua função institucional. Com o efeito suspensivo, a liminar concedida em favor do médico fica suspensa e se aguardará toda a tramitação do processo para decidir sobre o afastamento de suas funções.

Decisão

Em sua decisão, a desembargadora Joana Meireles, considerou que não houve violação ao contraditório e à ampla defesa e salientou que a situação que ocasionou a suspensão do médico de suas atividades é grave e deve ser reprimida.

“Não podemos minimizar os fatos como pretende o recorrido, ao afirmar que não houve violência obstétrica por conta da gestante não ter sido atingida fisicamente. Tal discurso somente contribui com a cultura de abusos e maus tratos durante o parto, devendo ser fortemente reprimida por todo Poder Judiciário. A violência obstétrica não pode ser entendida como agressão no critério físico, mas também o psicológico e o verbal”, afirmou a desembargadora em trecho da decisão.

Mortes em maternidades

A Defensoria Pública também instaurou um Procedimento Administrativo de Apuração de Dano Coletivo (PADAC) para investigar casos em série de violência obstétrica nas maternidades e hospitais públicos e privados no Amazonas.

A iniciativa ocorre em função do volume de casos semelhantes recebidos e acompanhados pela DPE-AM, incluindo as mortes de uma mulher de 35 anos e um bebê durante o parto, na Maternidade Balbina Mestrinho, também em fevereiro, em Manaus.

Ao todo, 35 ações envolvendo exclusivamente casos de violência obstétrica foram ajuizadas pela Defensoria de 2009 a 2018, na esfera cível. Destes, 12 envolvem mortes de gestantes ou bebês. Outros casos estão em fase de análise e reunião de documentação para serem ajuizados. Nas ações, a Defensoria Pública do Estado pede indenização por danos morais e materiais.

Defensoria

Mulheres vítimas de violência obstétrica podem procurar a unidade da DPE-AM na Casa da Cidadania, localizada na rua 2, casa 7, no conjunto Celetramazon, bairro Adrianópolis, e também a sede administrativa, que fica na rua Maceió, 307, bairro Nossa Senhora das Graças, caso queiram entrar com ação reparatória (indenizatória).

Se for o caso de um ato violento em curso – por exemplo, se a mulher estiver em trabalho de parto e enfrentar obstáculo para conseguir internação – os familiares podem procurar a unidade de Saúde da Defensoria, na rua 24 de Maio, 321, no Centro de Manaus. Outra opção é o plantão cível da Defensoria Criminal, na avenida Umberto Calderaro Filho, na zona Centro-Sul, em frente ao hotel Blue Tree.

Veja mais notícias em Cidade

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.